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Chico Alves

Na reta final no RJ, Paes evita 'já ganhou' e Crivella conta os 'traidores'

Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos) concorrem à prefeitura do Rio de Janeiro na eleição deste domingo - Reprodução/Facebook/Arte-UOL
Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos) concorrem à prefeitura do Rio de Janeiro na eleição deste domingo Imagem: Reprodução/Facebook/Arte-UOL
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

28/11/2020 12h01

A sessão virtual da Câmara Municipal do Rio se desenrolava normalmente na quinta-feira (26), quando o vereador governista Inaldo Silva (Republicanos) pediu a palavra para uma participação inusitada.

Reclamando da traição dos colegas que durante o mandato apoiaram o prefeito Marcelo Crivella, do mesmo partido de Silva, e agora passaram para o lado do candidato Eduardo Paes (DEM), que lidera as pesquisas, ele apelou à bancada da esquerda, conhecida por defender as minorias.

"Eu queria chamar agora o PSOL, o PT, o PDT: eu acho que era para a gente ficar do lado do Crivella, que é a minoria, porque está todo mundo contra! Até os vereadores da base estão contra também", disse Silva, arrancando risos dos outros participantes da sessão. "Vocês sempre lutaram a favor dos rejeitados, dos abandonados".

A cena ajuda a entender o estado de espírito dos apoiadores do prefeito do Rio na última semana de campanha no segundo turno da eleição municipal. Diante dos números das pesquisas, que preveem diferença de até 30% de votos válidos em favor de Eduardo Paes, mesmo correligionários fiéis não escondem o desânimo.

Do outro lado, Paes tenta conter o otimismo entre os apoiadores e proibiu o clima de "já ganhou". O candidato do DEM tem motivos de sobra para tomar cuidado com essa armadilha. Em 2018, na disputa pelo governo do estado, foi surpreendido pelo desconhecido Wilson Witzel (PSC), que cresceu na reta final e acabou eleito governador.

Com a vantagem apontada pelas pesquisas, parece improvável que algo semelhante aconteça dessa vez. No entanto, Paes teme que seus apoiadores achem que a vitória está garantida e não saiam de casa para ir às urnas.

"Temos que convencer os eleitores que não tem nada decidido, eles têm que votar", repetiu o demista à sua equipe nos últimos dias.

O desafio de Crivella é bem mais difícil. Além de estar muito distante do líder das pesquisas, ele é campeão de rejeição. Mesmo assim, tentou aparentar animação nos últimos compromissos na campanha de rua. Cercado de cabos eleitorais, cantou e dançou em visita aos bairros, quase sempre ao lado de seu chefe de gabinete, Marcos Luciano.

O servidor foi um dos organizadores do grupo Guardiões do Crivella, que ia às portas de unidades de saúde municipais para tentar impedir que os cariocas insatisfeitos com o atendimento fizessem denúncias à imprensa.

A dança de Crivella diante dos eleitores, no entanto, não se mostrou suficiente para contagiar seus aliados políticos. Foi grande o movimento dos que mudaram de lado. Um dos mais importantes a se bandear para as hostes do candidato do DEM foi o vereador Dr. Jairinho (SDD), que nos últimos quatro anos foi líder do governo Crivella na Câmara.

"Acredito que ele (Paes) tem mais capacidade de reerguer a cidade que o Crivella", admitiu Jairinho à jornalista Paloma Savedra, do jornal O Dia. Assim que começou a campanha do segundo turno, Jairinho comunicou a Crivella que apoiaria Paes.

Diante de liderança tão folgada nas pesquisas, o espectro ideológico de apoio ao demista é extenso. Vai desde os petistas, que declararam apoio a Paes tão logo saiu o resultado do primeiro turno, a bolsonaristas, como o vereador eleito Gabriel Monteiro (PSD), PM conhecido por propagar fake news a favor do presidente.

O candidato do DEM acolhe a todos, sorridente, mas evita dar pistas sobre quais serão seus secretários. A única exceção é Daniel Soranz, que Paes anunciou como possível secretário de Saúde, pasta que ocupou há seis anos. Não se sabe onde os apoiadores serão acomodados em caso de vitória.

"Se ele está montando secretariado, então está guardando tudo na cabeça dele", disse à coluna o deputado federal Pedro Paulo (DEM-RJ), um dos aliados mais próximos.

Mesmo sem admitir publicamente que já esteja tratando do que vai fazer no governo a partir de janeiro, Paes confidenciou a colaboradores que está quebrando a cabeça para encontrar uma solução para pagar o 13º salário dos servidores, que Crivella admitiu que não conseguirá honrar.

Outra providência que adiantou aos mais chegados: após as eleições vai às últimas consequências para descobrir e punir os responsáveis pela campanha de fake news deflagrada contra ele nos últimos dias.

Vários cabos eleitorais de Crivella foram flagrados distribuindo panfletos com a informação falsa de que o PSOL teria feito acordo para participar de um futuro governo Eduardo Paes e que ambos defendem a legalização do aborto, liberação das drogas e kit gay nas escolas.

A Justiça proibiu a distribuição do material e condenou Crivella a postar no perfil de Facebook a resposta do PSOL à acusação, algo que o prefeito já havia feito em entrevista ao deputado federal Otoni de Paula (PSC).

Marcelo Crivella chega à reta final da campanha pela reeleição como um concorrente que apela a recursos antiéticos para tentar ganhar a qualquer custo, algo bem diferente do perfil cristão que normalmente exibe em público.

Já Eduardo Paes esmera-se para evitar emitir qualquer sinal de soberba pela dianteira nas pesquisas. Aprendeu a lição de 2018 e não quer dar qualquer chance à zebra.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.