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Chico Alves

A guerra de Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo contra o Brasil

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo - Arthur Max/ Divugação/ MRE
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo Imagem: Arthur Max/ Divugação/ MRE
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

26/11/2020 18h11

Se as instituições estivessem realmente funcionando, como dizem por aí, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) já teria sido punido há muito tempo. Motivos não faltam. É só escolher.

Poderia ter sido penalizado por dizer, em entrevista a Leda Nagle, que um novo AI-5 estaria a caminho no Brasil. Segundo garantiu à jornalista, não era questão de "se", mas de "quando" as medidas autoritárias seriam adotadas no país.

"A apologia reiterada a instrumentos da ditadura é passível de punição", disse à época o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ). Apesar disso, nem Maia nem a Justiça moveram uma palha para dar uma resposta legal ao filho 03 do presidente.

Eduardo também deu motivos para ser punido quando, em junho, postou em sua conta no Instagram o vídeo de uma criança cantando enquanto empunhava uma arma. Essa atitude poderia - e deveria - ter rendido processo com base no Estatuto da Criança e do Adolescente, que veda tal publicidade negativa.

Há outros episódios nessa linha. Nem sinal de penalização.

Enquanto continua impune, o deputado aproveita para elevar o nível das encrencas.

Depois de diversas declarações e postagens em redes sociais atacando a China, o principal parceiro comercial do Brasil, Eduardo, que é presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, chegou ao ápice da insanidade.

Tratando de 5G, foi ao Twitter manifestar apoio à iniciativa do presidente americano Donald Trump, o consórcio Clean Network, contra os chineses.Escreveu que a providência evitaria espionagem do país asiático. Falou em "repúdio a entidades classificadas como agressivas e inimigas da liberdade, a exemplo do Partido Comunista da China".

Em resposta inédita, o embaixador chinês no Brasil bateu duro em Eduardo e deixou claro que o Brasil pode perder muito com essa arenga. No comunicado publicado nas redes sociais, a embaixada alertou que as autoridades brasileiras que seguirem esse caminho "vão arcar com as consequências negativas e carregar a responsabilidade histórica de perturbar a normalidade da parceria China-Brasil".

A repercussão foi imediata. Eduardo apagou as mensagens, deputados sugerem que ele seja retirado da presidência da Comissão de Relações Exteriores, empresários fizeram críticas veladas.

Até o momento, no entanto, nenhuma sanção.

Pelo contrário. A única consequência concreta foi o oficio da pasta liderada por Ernesto Araújo à embaixada chinesa reclamando do conteúdo "ofensivo e desrespeitoso" da resposta ao filho 03 do presidente.

Absurdamente, o texto diz que "não é apropriado" tratar de assuntos diplomáticos pelas redes sociais — justamente o meio utilizado.pelo presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara para atacar a China.

Assim, como menino mimado, Eduardo Bolsonaro mais uma vez está vendo sua travessura passar em brancas nuvens. Não liga se a traquinagem pode representar prejuízo monumental ao comércio exterior brasileiro.

Ao invés do castigo, o filho 03 recebeu a proteção de Araújo. Os dois obedecem às ordens do guru Steve Bannon, o estrategista americano das redes sociais, parceiro de Donald Trump, que há poucos meses foi preso sob acusação de desviar doações encaminhadas para a construção do muro entre Estados Unidos e México.

Bannon, guru da extrema-direita mundial, é a voz que fala dentro das cabeças conturbadas de Eduardo e Ernesto quando eles atacam a China.

O gringo defende os próprios interesses e os de Trump.

Já o deputado e o chanceler, que deveriam defender os interesses nacionais, optaram por também fazer o jogo americano. Atacam seja quem for para ajudar a fazer a América "great again".

A desenvoltura com que Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo travam essa guerra particular contra a soberania brasileira é mais um dos vários sinais de que, ao contrário do que muitos afirmam, as tais instituições não estão funcionando como deveriam por aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.