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Chico Alves

Ameaças a vereadoras negras e trans são perigo real, diz ativista Lola

Lola Aronovich, professora universitária, blogueira feminista e pedagoga  - Marília Camelo/UOL
Lola Aronovich, professora universitária, blogueira feminista e pedagoga Imagem: Marília Camelo/UOL
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

09/12/2020 11h41

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A professora universitária Lola Aronovich convive com ameaças das mais pesadas há pelo menos dez anos. Pouco tempo depois de lançar o blog "Escreva, Lola Escreva", onde publica textos contra machismo, misoginia, homofobia e racismo, ela passou a receber mensagens falando em assassinato, estupro e outras barbaridades.

Lola não se intimidou. Seu ativismo levou à prisão de alguns dos autores das ameaças, como o cracker Marcelo Vale Silveira Mello. Ela inspirou uma lei, aprovada em 2018, que atribui à Polícia Federal a responsabilidade de investigação de conteúdos misóginos na internet.

Com toda essa experiência, Lola alerta que a onda de ameaças sofridas por vereadoras e prefeitas negras e trans em vários estados não deve ser encarada como brincadeira de mau gosto que não vai se concretizar. "Pode acontecer, eles são terroristas", diz a ativista. Para maior eficácia do trabalho policial, ela sugere que as investigações sobre essas ameaças sejam unificadas.

Lola diz que as mensagens ameaçadoras em muitos casos têm padrão único, uma espécie de "copia e cola" do que se vê nos chamados "chans", fóruns anônimos da internet onde as discussões giram em torno do incentivo à violência às mulheres, homossexuais e negros. Em entrevista à coluna, ela diz que isso pode facilitar a identificação dos autores.


UOL - Com sua experiência, o que sugere à polícia para que as investigações sobre essas ameaças a vereadoras e prefeitas negras e trans possa chegar aos autores?

Lola Aronovich - As ameaças não podem ser tratadas de forma isolada. A chance de conseguir elucidação será maior se a gente juntar os casos. Comparando as ameaças à Ana Lúcia Martins (primeira vereadora negra eleita em Joinville), com as ameaças à prefeita de Bauru (Seéllen Rossim), contra a Carol Dartora (primeira vereadora negra eleita em Curitiba), contra a Duda Salabert (primeira vereadora trans de Belo Horizonte), contra o Alisson Júlio, que é o primeiro vereador de Joinville com necessidades especiais, são todas muito parecidas. É um "copia e cola".

Quem está mandando as ameaças só está mudando algumas características. Se são vereadoras negras, tem ofensas racistas. Para o vereador que tem necessidades especiais tem ofensas capacitistas. Para as vereadoras trans são ofensas transfóbicas e por aí vai. É um erro tanto da mídia quanto da polícia tratar isso como casos isolados, como se não fossem todos da mesma quadrilha.

Imagine que cada delegacia de cada cidade vai abrir um boletim de ocorrência e investigar separadamente. Não é muito mais lógico que haja comunicação entre essas delegacias?

Na verdade, isso se repete faz tempo. Essa mesma quadrilha misógina que agora faz essas ameaças, há alguns anos lançou guias de estupros na internet. "Como estuprar vadias na UNB", "Como estuprar vadias na USP", "Como estuprar vadias na UFC". Nenhum jornal ligava os pontos, mostrando que isso tinha acontecido antes em outras universidades. Temo que a polícia também trate cada caso individualmente. É como se a cada um desses casos fosse iniciada uma investigação nova a cada dois meses.

Qual tem sido o desempenho da polícia e da Justiça no combate a esse tipo de crime?

Quanto à quadrilha dos Homens Sanctos, do Dogolachan, o líder deles que me ameaçava, o Marcelo Vale Silveira Mello, já tinha sido preso em 2012, pela Operação Intolerância, por causa de um site em que pregava a legalização do estupro, da pedofilia, tinha recompensa para quem me matasse, para quem matasse o Jean Wyllys. Foi preso em 2012 e condenado a 6 anos e 7 meses de prisão. Ficou na cadeia durante um ano e três meses.

Quando ele saiu da prisão, em maio de 2013, voltou a fazer exatamente o que fazia antes. Inclusive criou o Dogolachan e começou a reciclar o material desses antigos sites de ódio em novas páginas. Ele fez isso durante cinco anos ininterruptos, entre maio de 2013 e maio de 2018. Fez isso sem ser incomodado pela polícia nenhuma vez, o que eu não consigo entender, já que saiu em liberdade condicional.

Uma das primeiras coisas que ele fez foi mandar ameaças para o delegado, para o juiz, algo incompreensível. Mas, depois de muito tempo aterrorizando muitas pessoas, foi preso de novo pela Operação Bravata e condenado a 41 anos de prisão. Está preso agora. Mas os outros membros do grupo dele estão soltos.

Dois moderadores desse grupo se suicidaram depois disso. Em junho de 2018, um mês depois da prisão do Marcelo, um deles, André Gil Garcia, mais conhecido como Kyo ou Fuego Sancto, saiu nas ruas de Penápolis (SP), onde morava e matou uma mulher que não conhecia, que nunca tinha visto antes, e se matou em seguida.

Em janeiro, depois de uma operação policial chamada Illuminate, cinco membros dos Homens Sanctos foram presos e sofreram busca e apreensão. Um deles, Raphael Imbuzeiro, conhecido como Technomage, se matou um mês depois. É um caso muito estranho. Ele fez transição e foi mulher trans durante vários anos, depois fez a transição de volta, mas nunca deixou de ser misógino.

Isso mostra que essas ameaças não são apenas mensagens intimidatórias, mas podem se concretizar.

Sim, pode acontecer. Os chans, não só aqui no Brasil, mas no mundo todo, são fábricas de psicopatas. Ficam instigando novos "heróis", novos ícones, gente que já tem tendências suicidas, porque a vida deles é cheia de ódio, sem namoro sem estudo, sem trabalho, dependendo dos pais para tudo, uma vida muito solitária em que eles já pensam muito em suicídio.

O que os chans fazem é instigá-los: "Como está pensando em se matar, leve a escória junto. Vá em uma palestra feminista, em marcha a favor dos gays ou contra o racismo, mate o máximo de pessoas possível, depois se mate e vire um herói para nós". É isso que eles falam o tempo todo.

Por isso, o Kyo se suicidou em Penápolis. Deixou um recado no Dogolachan dizendo que ia se matar e matou uma pessoa.

Então, pode acontecer, eles são terroristas. Estão por trás, por exemplo, do massacre de Suzano, em março de 2019, que em parte foi planejado no Dogolachan, quando ainda estava na deep web.

As ameaças a você ainda são muito frequentes?

Recebo ameaças toda semana, gente dizendo que está na minha cidade, que em pouco tempo estará na minha casa e que eu não vou escapar. No Dia da Consciência Negra chegaram várias ameaças prometendo um massacre na universidade onde eu trabalho. Esse tipo de mensagem que envolve terrorismo eu mando para a Polícia Federal.

Mas continuo a minha vida normalmente. Recebo essas ameaças já faz dez anos e se eu tivesse me deixado intimidar por isso talvez me mudasse de país. Mas me sinto protegida por morar no Nordeste, já que muitos desses grupos estão em São Paulo ou no Sul. Quando surgiram as ameaças para o meu marido e para a minha mãe, que tem 85 anos, fiquei mais abalada. Mas não tem muito que fazer e levamos a vida em frente.

Reconhece nas ameaças a essas vereadoras e prefeitas o mesmo padrão das ameaças a você?

As ameaças que estão chegando agora são "copia e cola" de um membro do Dogolachan que está atuando desde 2016. Ele está ameaçando um monte de gente, está por trás das ameaças a Jean Wyllys e a mim, mas também a Joice Hasselmann, a Carla Zambelli, a Janaína Paschoal, ao escritor Anderson França, ao Trump, a Marcela Temer e por aí vai.

A polícia ainda não prendeu esse cara, a gente não tem certeza sobre quem ele é, é um tal de Goec, que surgiu dizendo que iria acabar comigo. Pegava dados pessoais das pessoas com quem eu falava por Twitter e mandava ameaças por e-mail. Dizia o endereço de casa, do trabalho e dizia que ia cometer estupro.

Além de unificar as investigações, o que mais a polícia pode fazer para ser mais eficaz na repressão a esses grupos?

A polícia tem que monitorar esses chans porque são fábricas de terroristas. Podem e vão surgir mais terroristas nesses grupos. Se eu monitorei de 2014 a 2018, eles podem destacar alguém para fazer esse trabalho. Dá para saber ali o que eles estão planejando