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Chico Alves

Choremos pelas crianças que vão morrer a tiros de fuzil como Emily e Rebeca

Emily Victória Silva dos Santos, 4, e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, 7, brincavam no portão de casa quando foram baleadas - Arquivo Pessoal
Emily Victória Silva dos Santos, 4, e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, 7, brincavam no portão de casa quando foram baleadas Imagem: Arquivo Pessoal
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

06/12/2020 11h16

É como se tudo estivesse previsto em um roteiro que todos temos que seguir. Primeiro a tragédia: as primas Emily, de 4 anos, e Rebeca, de 7 anos, são assassinadas em uma comunidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a tiros de fuzil. A partir desse flagelo, já sabemos tudo o que vai acontecer - e tudo o que não vai acontecer.

O crime ocorreu na noite de sexta-feira. Lídia Santos, avó de Rebeca, conta que voltava do trabalho e iria ao encontro das meninas, que a esperavam na calçada para cumprir a promessa de comprar um lanche.

Assim que desceu do ônibus, Lídia viu um carro da Polícia Militar. Em seguida, foram feitos os disparos. A avó e outras testemunhas acusam os PMs de terem atirado. Em nota, a corporação nega que os policiais tenham apertado o gatilho.

Um projétil atingiu Rebeca na cabeça.

Outro tiro acertou o abdômen de Emily.

A tentativa de amigos para salvar as duas foi inútil.

O desespero tomou conta dos familiares. Ao mesmo tempo em que choravam a dor de um acontecimento tão devastador, passaram a reivindicar a única coisa que os parentes de vítimas pedem em casos assim. Justiça.

Os vizinhos das meninas fizeram um protesto. Gritaram por justiça.

Emily e Rebeca foram enterradas ontem, ao som de pedidos de justiça.

A mais nova completaria 5 anos no dia 23 e teria como tema de sua primeira festa de aniversário desenho animado da Disney, Moana. Sem que ela soubesse, os pais tinham comprado a roupa da personagem. esse seria o seu presente. Emily foi sepultada com o vestido de Moana.

O pai da menina, Alexsandro, passou mal e teve que ser amparado. "Estou enterrando a minha filha, que não viveu nada", lamentou o homem, entre lágrimas.

Como Emily e Rebeca, pelo menos outras 10 crianças foram mortas no Rio em 2020 por "balas perdidas" disparadas pelas armas de policiais ou traficantes envolvidos na guerra insana gerada pela ideia de que o confronto resolverá os problemas de segurança pública.

Outras dezenas de meninas e meninos morreram assim no ano passado. E no retrasado.

Pior: não é pequena a possibilidade de que outros pequenos morram pela mesma causa ainda este ano.

Com certeza muitos perderão a vida dessa forma no ano que vem. E nos próximos anos.

A morte de Emily e Rebeca motivará novos protestos, personalidades públicas farão pronunciamentos indignados, matérias e artigos jornalísticos (como o que você lê agora) serão escritos para marcar a tragédia.

As autoridades policiais prometerão investigação e punição rigorosa.

Cumprido esse roteiro, em alguns dias tudo terá voltado ao normal. Os dramas cotidianos dos moradores das comunidades serão novamente cobertos com o manto da invisibilidade e a vida seguirá seu rumo.

Até que a próxima criança negra e pobre seja atingida por mais um disparo e mais uma vez esse roteiro seja cumprido

Esse futuro alvo, de quem ainda não sabemos o nome, pode estar brincando nesse momento, sorridente, perto dos pais e dos amiguinhos, na rua de alguma favela ou bairro carente da periferia.

Se vamos continuar seguindo o tal roteiro, além de chorar por Emily e Rebeca, podemos desde já chorar pela menina ou menino que será o próximo a engrossar a estatística macabra a que tristemente nos acostumamos, nesse país em que crianças morrem por tiro de fuzil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.