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Chico Alves

Ao falar na TV, Jair Bolsonaro ingressou na encrenca da rachadinha

Presidente Jair Bolsonaro  - Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo
Presidente Jair Bolsonaro Imagem: Mateus Bonomi/AGIF/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

16/12/2020 15h06

Como se fizesse um comentário banal, o presidente Jair Bolsonaro disse ontem ao apresentador José Luiz Datena a seguinte frase: "O Queiroz pagava conta minha também, era de confiança". Foi assim, candidamente, que Bolsonaro se encaminhou para o meio do imbroglio da rachadinha, esquema de usurpação de dinheiro de funcionários da Assembleia Legislativa do Rio que seria liderado pelo seu filho, Flávio.

Há mais de dois anos, investigação do Ministério Público do Rio desenrola o fio dessa história escabrosa. Foram denunciados o filho presidencial 01 e Fabrício Queiroz, seu ex-assessor, como líderes do grupo responsável por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Segundo o MP, boa parte dos milhões amealhados dessa forma serviram para pagamento de contas ou aquisição de bens de Flávio Bolsonaro, sua mulher e pessoas próximas.

Já que o presidente admite que Queiroz também pagava suas contas — antecipando algo que as investigações em algum momento trariam à tona —, é inevitável a pergunta: qual a origem do dinheiro usado para quitar os boletos de Jair Bolsonaro?

Uma outra questão: qual foi o montante gasto por Queiroz para pagar contas do ocupante do Palácio do Planalto?

Em outro ponto da entrevista de ontem, Bolsonaro ofereceu a Datena uma nova versão sobre o dinheiro depositado na conta da primeira-dama Michelle pelo ex-assessor da Alerj e sua mulher, Márcia. Quando isso foi descoberto, no fim de 2018, o presidente disse que a quantia era referente ao pagamento de um empréstimo de R$ 40 mil que ele, Bolsonaro, fizera a Queiroz.

Há poucos meses, revelou-se que o valor depositado para a primeira-dama foi de R$ 89 mil, mais que o dobro do admitido pelo presidente.

Agora, Bolsonaro acrescenta à trama uma nova invenção. Disse que os depósitos para Michelle foram feitos em dez anos, o que representaria uma mensalidade de R$ 750. "Isso é propina? Pelo amor de Deus!", argumentou.

Não é verdade. Os depósitos de Queiroz e Márcia na conta da primeira-dama foram feitos em quatro anos. Mais especificamente, 27 depósitos, assim distribuídos: nove cheques em 2011, mais seis cheques em 2012, três em 2013 e nove em 2016. O rateio de uma possível propina seria então um pouco maior.

O principal, no entanto, é que a versão de empréstimo não se sustenta. O MP não achou na conta de Queiroz nenhum depósito que poderia ser atribuído a Bolsonaro.

A não ser, é claro, que o aporte tenha sido feito em espécie. Algo que, como se sabe, é habitual nas transações feitas pela família Bolsonaro e seus amigos.

A origem do dinheiro com que Queiroz quitava as contas do presidente e a justificativa para o pagamento por um empréstimo que não existiu deverão em algum momento vir à tona.

Por ora, a República seque sua rotina como se Bolsonaro não tivesse falado nada de mais.