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Chico Alves

Militantes bolsonaristas tentam mudar foco da greve dos caminhoneiros

Manifestações pró e contra na saída de um caminhão  - Fábio Motta/Estadão Conteúdo
Manifestações pró e contra na saída de um caminhão Imagem: Fábio Motta/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

28/01/2021 13h47

Diante da possibilidade cada vez maior de que os caminhoneiros iniciem uma greve nacional na segunda-feira, 1º de fevereiro, grupos bolsonaristas se mobilizam para tirar o presidente da República do centro das críticas. A convocação de paralisação tem o objetivo de cobrar do governo federal o cumprimento das promessas feitas à categoria, como redução do preço do diesel.

Apesar disso, nos grupos de WhatsApp dos caminhoneiros que se mobilizam para a greve, começaram a surgir textos que apontam outros culpados pela situação da categoria, poupando Bolsonaro. Há mensagens que criticam o governador de São Paulo, João Doria, os ministros do Supremo Tribunal Federal e os juízes em geral.

Esses textos também pedem reforma política e constitucional, uma lei contra enriquecimento ilícito de políticos e tratam de outros temas que estão fora da pauta dos caminhoneiros.

Desde ontem, a plataforma Bot Sentinel detectou que pelo menos 86 tuites com a hashtag #caminhoneiroscontradoria foram disparados de contas inautênticas — ou seja, publicados por robós. A manifestação chegou a estar nos trend topics do Twitter e, apesar de ser apoiada em contas falsas, foi usada como argumento pela deputada Carla Zambelli para defender seu líder político.

"Querem tentar colar a imagem dos caminhoneiros contra o presidente, mas a população e os próprios caminhoneiros mostram quem é o principal vilão da história", escreveu a deputada, referindo-se a João Doria.

Quase todos os itens da pauta da categoria, no entanto, são de competência do governo federal e não de qualquer governador. Cumprimento da lei que estabelece o piso mínimo para motoristas, isenção de PIS/Cofins nos derivados de petróleo, gratuidade nos pedágios para os caminhoneiros e aposentadoria especial, entre outros temas, estão no campo de ação de Bolsonaro.

Muitas mensagens e vídeos nos grupos de WhatsApp, porém, citam exclusivamente como reivindicação a redução do ICMS por parte do governador Doria e não tocam em outros itens da pauta, que são da responsabilidade do governo federal. Em um dos vídeos, o governador paulista é chamado de "calça apertada", forma pejorativa como o presidente Bolsonaro, seus filhos e apoiadores se referem a ele.

Outro vídeo, com imagens de manifestação de motoristas em uma cidade europeia falsamente identificada como São Paulo, foi postado em um dos grupos para incentivar manifestações contra Doria.

Volta e meia há reação de alguns caminhoneiros dos grupos, participantes que citam Bolsonaro como o atual responsável pela situação dos caminhoneiros. "Não temos político de estimação", protestou o integrante de um dos grupos.

O presidente da Associação Brasileira de Condutores de Veículos Automotores, Wallace Landim, o Chorão, expressou ontem à coluna a preocupação com a ação de pessoas que tentam politizar o movimento. Ele admitiu que o então candidato Jair Bolsonaro fez isso em 2018, para obter o apoio da categoria.

A representação sindical dos caminhoneiros é pulverizada em várias associações e entidades em todo o país, o que dificulta avaliar o nível de adesão à proposta da de greve. Nos grupos de WhatsApp, a manifestação de motoristas favor da paralisação é majoritária.