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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O show de horrores da Lava Jato parece nunca ter fim

Deltan Dallagnol - Geraldo Bubniak/AGB/Agência O Globo
Deltan Dallagnol Imagem: Geraldo Bubniak/AGB/Agência O Globo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

23/02/2021 09h17

"Se não fizermos algo, cairemos em descrédito", alertou o procurador Orlando Martello Júnior, falando a seus colegas da Lava Jato. O episódio a que se referia, em conversa hackeada de um aplicativo de mensagens, realmente é algo escabroso. Um verdadeiro desafio para quem ainda tenta defender os justiceiros de Curitiba com o refrão de que cometeram apenas "pequenos deslizes".

A revelação dessa última leva de diálogos vazados surpreende até mesmo quem esperava as piores barbaridades da parte de Deltan Dallagnol, Sergio Moro e cia. A ser comprovado o que está dito ali, a delegada federal Érika Marena simplesmente forjou o depoimento de uma testemunha que ela, na verdade, não inquiriu.

A fala de Dallagnol não poderia ser mais clara. "Como expõe a Erika: ela entendeu que era pedido nosso e lavrou termo de depoimento como se tivesse ouvido o cara, com escrivão e tudo, quando não ouviu nada... Dá no mínimo uma falsidade... DPFs são facilmente expostos a problemas administrativos", afirmou o procurador.

Na sequência, Martello Júnior alerta para o risco do descrédito. Sugere como saída convocar a testemunha para que faça um depoimento real. "Podemos conversar com ela e ver qual estratégia ela prefere", diz, referindo-se à delegada.

Pelo diálogo, ficamos sabendo que não foi a primeira vez que a turma da Lava Jato se permitiu tamanha barbaridade. "O mesmo ocorreu com padilha e outros", afirma Martello Júnior. "Já disse, a culpa maior é nossa. Fomos displicentes!!! Todos nós, onde me incluo. Era uma coisa óbvia q não vimos. Confiamos nos advs e nos colaboradores. Erramos mesmo!".

Os "erros" que comenta são, na verdade, uma sequência de crimes. De acordo com os diálogos, Érika Marena inventou um depoimento e o mesmo aconteceu com outras testemunhas (não se sabe se a delegada era a mesma).

Como confirma Deltan, isso é no mínimo falsidade ideológica, mas pode ser enquadrado em vários outros artigos.

Junto com Marena, todos os procuradores que souberam desse absurdo e não denunciaram a policial prevaricaram e são coniventes com ela. O bate-papo mostra que, em vez de cumprir as funções para as quais são pagos, os procuradores se preocuparam em proteger a delegada.

Os conteúdos dos diálogos já seriam sórdidos o bastante, mas tudo piora quando se sabe que o depoimento ficcional faz parte do inquérito que levou à prisão o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Luiz Carlos Cancellier, um homem muito respeitado no meio acadêmico. O tempo todo, o acusado alegou que o suposto crime de que o acusavam era apenas um imbróglio administrativo, sem maiores consequências.

Não adiantou. A operação que prendeu o reitor e outros seis professores foi uma das mais espalhafatosas da Lava Jato, com 115 policiais invadindo a UFSC como se buscassem um criminoso de alta periculosidade.

Cancelier foi mandado para a penitenciária de Florianópolis, teve os pés acorrentados, mãos algemadas, submetido a revista íntima e encaminhado para a ala de segurança máxima.

Acabou libertado 30 horas depois, mas ficou traumatizado. Segundo parentes e amigos, não conseguia mais sair à rua, com vergonha de ser apontado como corrupto. Em outubro de 2017, cometeu suicídio.

Além dos abusos praticados, o inquérito estava repleto de inconsistências levantadas à época pela defesa do reitor. A família denunciou a delegada ao Ministério da Justiça, mas a sindicância que investigou a conduta de Érika Marena a inocentou.

Tempos depois, a delegada foi prestigiada por Sergio Moro, que deu a ela um cargo importante no Ministério da Justiça. Saiu de lá quando o ex-juiz pediu demissão da pasta.

Se já não fosse bastante o que veio à tona desde que o The Intercept Brasil lançou a série de revelações da Vaza Jato, os diálogos agora divulgados não deixam mais dúvidas sobre qual a natureza dos paladinos anticorrupção.

A jornalista Mônica Bergamo revela hoje, na Folha de S. Paulo, que ministros do Supremo Tribunal Federal pediram a André Mendonça, titular da pasta da Justiça, para investigar o caso. Que a apuração seja rigorosa.

Como a coluna observou várias vezes, sustentar elogios aos justiceiros de Curitiba argumentando com os valores que recuperaram para os cofres públicos permite defender milicianos que nas comunidades cariocas dizem combater bandidos usando métodos criminosos.

Não deixa de ser intrigante que entre os lavajatistas convictos haja juristas e outros leitores da Constituição, que parecem ignorar algo básico: não se pode fazer justiça sem cumprir as leis.

Quando essa regra não é seguida, a cena de policiais conduzindo um acusado para a prisão ganha outro significado. Eventualmente pode até ser que o preso seja culpado, mas aquele que deveria ser o herói da história é criminoso também.

*NOTA: No momento em que comandou a operação na UFSC que prendeu Luiz Carlos Cancelier, Érika Marena oficialmente não era mais integrante da Lava Jato, mas a manutenção de seu vínculo com a força-tarefa de Dallagnol fica clara nos diálogos hackeados. Tanto que Dallagnol fala: "Como expõe a Erika: ela entendeu que era pedido nosso e lavrou termo de depoimento como se tivesse ouvido o cara". Além disso, ao admitir que tomaram conhecimento do suposto crime sem denunciá-lo, os integrantes da Lava Jato se tornam cúmplices, a se confirmar a autenticidade das mensagens".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL