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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

A favela percebe que a política não nos beneficia, diz Chavoso da USP

Chavoso da USP - Ilustração: Camila Pizzolotto
Chavoso da USP Imagem: Ilustração: Camila Pizzolotto
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

09/05/2021 04h00

A convicção de que a política atual não vai resolver os problemas das favelas faz com que os moradores dessas comunidades se sintam cada vez menos atraídos pelo atual sistema de democracia representativa. Esse é o diagnóstico de Thiago Torres, o Chavoso da USP, estudante de Ciências Sociais e um dos principais youtubers de política do país.

À coluna, ele fala sobre os motivos do baixo interesse da população pobre pelo processo político. "As pessoas estão percebendo que em grande medida esse sistema político em que a gente vive não existe para beneficiar a nós", acredita.

Concedida dias antes da ação da polícia do Rio na favela do Jacarezinho, que resultou em 28 mortes, a entrevista de Thiago ajuda a entender a condição frágil em que vivem brasileiros como os da comunidade carioca. "Infelizmente, a vida na favela é assim e isso em relação a tudo. Até mesmo emprego, a própria vida: você pode morrer a qualquer momento. Não tem nem a garantia de que você vai estar vivo amanhã", explica.

No começo, Thiago atraiu curiosidade pelo estilo de roupa que usa para frequentar as aulas da Universidade de São Paulo (USP). Morador da Brasilândia, bairro pobre da capital paulista, ele não abriu mão do bermudão, das camisas de clubes de futebol, do boné e do cordão para assistir as aulas na instituição, predominantemente frequentada por alunos de classe média.

Essa marca continua, mas o jovem de 20 anos cresceu nas redes sociais pelo preparo intelectual. Com a linguagem simples e direta de quem vive em uma localidade popular, ele divulga vídeos em que torna compreensíveis por qualquer pessoa os mais complexos conceitos de política e sociologia.

Thiago sugere que a esquerda apresente aos moradores da favela alternativas de participação política, canalizando o "sentimento antissistêmico". Não é o que está acontecendo, segundo ele. "A esquerda, que, infelizmente, ainda é em grande parte de classe média, quer instigar que as pessoas continuem confiando nesse sistema político, nesse sistema econômico", critica. "Então, a população não vai confiar nessa esquerda, vai jogar tudo no mesmo balaio".

A seguir, os principais trechos da entrevista, que pode ser ouvida na íntegra no podcast Outro Mundo, no Spotify::

Política desinteressante

A política institucional está se mostrando desinteressante para as pessoas. Votar em candidatos, se filiar a partidos, isso está se mostrando cada vez menos interessante porque se generalizou a visão de que é tudo igual, todos os políticos são iguais, todos são corruptos, todos são bandidos, nenhum está nem aí para a gente, são oportunistas e só colam na quebrada em ano eleitoral.

Essas opiniões estão cada vez mais frequentes e comuns. Mas não acho que isso significa que as pessoas não tenham interesse nenhum em política. Eu acredito que essas opiniões são políticas em si. Apesar de parecer que são uma negação da política, eu acho que não.

As pessoas estão demonstrando que essa forma de fazer política, esse sistema político não está atraindo mais as pessoas, se é que algum dia atraiu. E as pessoas estão percebendo que em grande medida esse sistema político em que a gente vive não existe para beneficiar a nós.

Então a gente precisa ficar muito em alerta com essas opiniões, com essas visões. Não vou romantizar e dizer que as pessoas estão super politizadas e querendo se engajar em movimentos sociais e em outras formas de fazer política. Infelizmente, não. Então a gente tem esse desafio. A gente precisa explicar melhor para a população em geral o que é a política, porque não está claro. Eu acho que a maioria das pessoas continua achando que a política é só a política institucional e eleitoral. Não é isso, movimento social também é política.

As favelas contra o sistema

Esse sistema político em que a gente vive é muito falho, precisa ser muito criticado em muitos pontos, mas eu não acho que agente deva negar ele. A gente precisa se atentar muito mais, porque a partir do momento que a gente nega acontece, por exemplo, como no segundo turno de 2018: "não vou votar porque os dois são a mesma merda". Quem seguiu por esse lado infelizmente acabou sendo conivente com a eleição do Bolsonaro, conscientemente ou não.

É muito nítido pra mim que a população nas favelas tem um sentimento antissistêmico muito grande, seja contra o sistema político ou econômico. Porque, mano, é impossível você nascer e crescer em uma favela, você ser na grande maioria dos casos negro, trabalhar em empregos precarizados, sofrer todo tipo de descaso, todo tipo de violência, inclusive do próprio Estado, através da Polícia Militar, e você ser uma pessoa pacifista, que gosta desse sistema, que gosta dessa sociedade. Não tem condição. As pessoas crescem cheias de ódio.

Não existe politização, então as pessoas não sabem nem para onde direcionar esse ódio. Existe uma ideologia dominante burguesa, capitalista, liberal, sendo implantada na mente das pessoas diariamente, principalmente através da grande mídia, para que as pessoas aceitem e se contentem com esse sistema.

Mas entra nesse choque: a pessoa com ódio do sistema, mas de outro lado ela sendo 'domesticada' para se contentar com esse sistema. O papel da esquerda deveria ser justamente instigar esse sentimento antissistêmico, combatendo essas ideologias liberais burguesas. Só que politizando esse sentimento. Esse 'ódio' é totalmente legítimo. Então, vamos nos organizar. Participar de organizações políticas, grupos sociais, etc.

Esquerda classe média

Existe um problema muito forte no nosso país que é a desigualdade socioeconomica, que se reflete na desigualdade educacional e boa parte das pessoas de esquerda, pra não falar a maioria, acabam sendo pessoas de classe média para cima.

A política eleitoral é um termômetro bom para muita coisa. Boa parte dos candidatos de esquerda acaba tendo mais votos entre a classe média e nos centros do que nas periferias. (...) Apesar de também ser classe trabalhadora e também ser explorada por esse sistema, a classe média está numa posição muito mais confortável, diferente de alguém que nasce e cresce em favela. A pessoa que nasce e se cria na favela ela cresce muito cheia de raiva, de 'ódio' - entre aspas, não quero ser interpretado errado - e descrente com esse sistema.

Já uma pessoa que é de classe média está em uma posição um pouco mais confortável. Pode até perceber que esse sistema tem problemas mas ela tem uma tendência maior a ser reformista. Vamos conquistar um direito aqui, um direito ali, vamos reformar ali um pouquinho. Enquanto a pessoa na quebrada fala "que porra de votar, eu quero quebrar tudo, eu quero que se foda os políticos que são um bando de bandidos". É muito nítida essa diferença.

A esquerda, que, infelizmente, ainda é em grande parte de classe média, quer instigar que as pessoas continuem confiando nesse sistema político, nesse sistema econômico. 'Vamos votar no candidato X", "vamos fazer isso", "vamos fazer aquilo"? Limita muito as possibilidades. Isso vai abafando aquele sentimento atissistêmico do qual eu estava falando. A esquerda deveria instigar esse sentimento, mas não faz isso. Então, a população não vai confiar nessa esquerda, vai jogar tudo no mesmo balaio.

Tendência ao individualismo

A pessoa que vive numa condição de vulnerabilidade econômica muito grande geralmente só consegue olhar para o agora, não consegue olhar para o amanhã. Veja as pessoas que estão em insegurança alimentar, que é você estar almoçando sem saber se vai jantar. Ou você estar jantando sem saber se vai ter café da manhã no dia seguinte.

Infelizmente, a vida na favela é assim e isso em relação a tudo. Até mesmo emprego, a própria vida: você pode morrer a qualquer momento. Não tem nem a garantia de que você vai estar vivo amanhã.

Infelizmente, quando você vive uma vida dessas, em que absolutamente nada é garantido a você, nem a vida, nem o trabalho, nem a renda, nem a moradia, nem a alimentação, ou seja, o básico para sobreviver não é garantido, acontece essa tendência ao individualismo.

Tipo: mano, eu preciso focar aqui na minha sobrevivência, na minha família, me proteger, proteger minha casa. Infelizmente essa é a tendência. Não estou legitimando, mas infelizmente é assim.

Isso acontece porque as pessoas não conseguem perceber que se todo mundo se unisse, aí, mano, ninguém ia passar mais por isso. Essa é uma estratégia do sistema para dividir a gente, jogar cada um em uma luta por sobrevivência. Cada um está enfrentando mil dificuldades por dia, não consegue nem olhar para o lado e dizer "caramba, tem uma pessoa que está enfrentando as mesmas dificuldades que eu também estou".