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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Negociação suspeita da Covaxin pode explodir no colo de Bolsonaro

Presidente da República Jair Bolsonaro - Isac Nóbrega/PR
Presidente da República Jair Bolsonaro Imagem: Isac Nóbrega/PR
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

23/06/2021 16h12Atualizada em 24/06/2021 10h25

A CPI da Covid foi criada para identificar os motivos pelo qual o Brasil se tornou referência mundial de fracasso no combate à pandemia. A princípio, os senadores buscavam provas de incompetência ou negligência do governo federal, que não fez campanha pelo distanciamento social, não fez testagem em massa, defendeu o uso de remédios ineficazes contra a covid-19 e atrasou a compra de vacinas. Essas e outras barbeiragens fizeram o país ultrapassar a barreira dos 500 mil mortos.

Para surpresa dos próprios integrantes da comissão, no entanto, a investigação acabou desembocando em um campo diferente. Os caminhos heterodoxos percorridos na negociação de compra da vacina indiana Covaxin levantam graves suspeitas de corrupção.

Entre todos os imunizantes, somente nesse caso foi utilizado um intermediário no processo de compra, a empresa Precisa. A negociação se deu de forma surpreendentemente célere - tratativas resolvidas em três meses, enquanto o laboratório Pfizer esperou o dobro desse tempo para receber uma simples resposta de e-mail.

Tudo para adquirir uma vacina com preço bem maior que as demais e que ao fim da negociação ficou ainda mais cara: desde que foi oferecida ao governo até o momento que foi comprada, a Covaxin teve uma alta de 1.000%, como revelou reportagem do jornal Estado de S. Paulo.

Esses fatos já seriam estranhos o bastante, mas a CPI trouxe a público ainda mais. Um funcionário do Ministério da Saúde, responsável por liberar a importação de vacinas, contou ao Ministério Público Federal estar sofrendo pressões indevidas para liberar o pagamento adiantado de US$ 45 milhões a uma empresa intermediária da compra da Covaxin.

O funcionário é irmão do deputado Luis Miranda (DEM-DF), que levou o assunto ao então ministro Eduardo Pazuello e ao presidente Jair Bolsonaro, segundo conta. Miranda é bolsonarista convicto e esteve recentemente passeando na garupa da moto do presidente. Recebeu de Bolsonaro a promessa de que tomaria providências contra a negociata.

Depois disso, porém, não conseguiu mais conversar com o presidente. Enquanto isso, o contrato para aquisição da Covaxin continuou em vigor. Até hoje, ele não sabe se o ocupante do Palácio do Planalto determinou ou não à Polícia Federal que investigasse o caso.

A história cabeluda continua na mira do MPF, que identificou indícios de crime no contrato entre o ministério e a Precisa Medicamentos.

O deputado Miranda e seu irmão vão à CPI na sexta-feira para detalhar o esquema e já estão sob proteção especial, já que o parlamentar disse temer por sua vida após as denúncias que fez. A investigação da comissão seguirá para tentar esclarecer se houve, como parece, corrupção no processo de compra da vacina indiana do laboratório Bharat Biotech.

O MPF e a CPI estão, portanto, fazendo a parte que lhes cabe para apurar o caso. Falta ser respondida uma pergunta importante: depois de ser alertado para tantos indícios de irregularidade, o presidente Bolsonaro providenciou que o caso fosse investigado pela PF?

Se o fez, cumpriu o seu dever.

Se não o fez, deve muitas explicações à nação.

Segundo relata Miranda, somente depois de tentar alertar vários integrantes do governo ele decidiu "explodir" essa denúncia publicamente. Fez isso porque suas reclamações não tiveram nenhuma consequência.

Qualquer servidor público que é informado sobre esquema de corrupção no governo tem obrigação de denunciá-lo, sob pena de estar prevaricando. Essa obrigação é ainda maior no caso do presidente da República.

Se Bolsonaro não tomou nenhuma iniciativa para que a história que agora vem à tona fosse esclarecida pela polícia, a bomba detonada pelo deputado poderá explodir em seu colo.