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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com festança para Tomás Covas, PSDB dá sobrevida ao coronelismo

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

19/08/2021 04h00

Pouco mais de três meses depois da morte de Bruno Covas, seu filho, Tomás, se filiou ontem ao PSDB. Apesar de ter apenas 16 anos, o adolescente teve tratamento de estrela ao se tornar oficialmente um tucano. Antes, já tinha aceitado estágio oferecido pelo governador João Doria na administração pública estadual. "Que alegria receber Tomás Covas, filho do meu querido amigo", saudou Doria, nas redes sociais.

Ao que tudo indica, o objetivo do PSDB é fazer do garoto uma espécie de político de proveta. A base do projeto é, obviamente, o sobrenome do novato.

O próprio Tomás reconhece que pertencer à linhagem em que o bisavô e o pai foram homens públicos de destaque é uma vantagem e tanto nesse meio. "Na família, a gente brinca que o sobrenome dá um empurrão", disse ele à revista Veja.

Se essa movimentação toda estivesse ocorrendo em algum estado do Nordeste, comentaristas e estudiosos não teriam dúvida em usar a palavra "coronelismo" para definir a situação. Foi assim no caso de João Campos, filho de Eduardo Campos, governador de Pernambuco que morreu há sete anos em um acidente de avião.

Como se sabe, coronéis políticos são aqueles que usam o prestígio e o dinheiro para perpetuar filhos, netos e outros parentes em cargos do Executivo ou do Legislativo. A prática raramente é associada ao Sudeste, que se acha "muderno" demais para isso. O PSDB paulista, no entanto, mostrou a todos como funciona.

Os caciques do partido deveriam refletir sobre o significado da festança armada para a filiação de mais um integrante da família Covas.

A representatividade política decorre de vários fatores, mas entre eles não está o sobrenome. Uma legenda que já teve tanta importância para o país não deveria manter tais vícios aristocráticos.

Além do mais, o evento ocorre pouquíssimo tempo depois da morte de Bruno Covas. Não seria recomendável algum cuidado quanto a isso, um prazo maior para evitar especulações de que houve exploração política da dor?

Mesmo o estágio oferecido por Doria foi muito questionado nas redes sociais. Afinal, não falta gente talentosa em busca de oportunidade como essa e com necessidade muito maior. Cargos públicos, sejam efetivos ou provisórios, devem ser ocupados por meio de seleção imparcial.

Tomás, tão jovem e ainda sob a dor da perda do pai, não tem culpa nenhuma nisso. Que ele seja feliz em sua trajetória política.

Doria e o PSDB é que poderiam muito bem recalcular sua rota.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL