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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Afinado com Bolsonaro, Lira passa o trator na Câmara

Arthur Lira - Ilustração: Camila Pizzolotto
Arthur Lira Imagem: Ilustração: Camila Pizzolotto
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

15/10/2021 04h00

O trator é a geringonça da moda. Não só por ser o símbolo do agronegócio, setor de maior destaque na economia do país, ou porque esse tipo de máquina foi uma das preferidas dos parlamentares contemplados com o escandaloso orçamento secreto distribuído pelo presidente Jair Bolsonaro.

Quem acompanha a atuação do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), imediatamente compreende o motivo do substantivo metálico ter se transformado no verbo "tratorar".

Em total sintonia com Bolsonaro, que garantiu ao Centrão uma considerável fatia dos recursos e cargos, Lira age como se os colegas de Congresso fossem meros coadjuvantes no roteiro traçado por ele.

O presidente da Câmara reduziu os artifícios de obstrução que eram usados pela oposição, barrou 86 proposições e projetos que anulariam iniciativas do governo e frequentemente convoca votações repentinas em que temas de interesse do Executivo são decididos sem o necessário debate com a sociedade.

Lira não liga para reclamações: passa o trator nos descontentes.

A lista de exemplos é longa, mas nos últimos dias dois temas em especial fizeram o presidente da Câmara mobilizar os seus liderados do Centrão. A aprovação da nova forma de cálculo do ICMS para combustíveis e a proposta de mudança na escolha de corregedores do Ministério Público e na composição do Conselho Nacional do Ministério Púbico.

Na primeira votação, Lira se colocou contra todos os governadores do país e muitos prefeitos para fazer aprovar uma fórmula de cálculo que vai resultar em menor arrecadação para os estados. Com isso, reforçou a tese de seu parceiro Bolsonaro, que atribui exclusivamente ao ICMS a culpa pelo preço estratosférico dos combustíveis - o que tira a responsabilidade do governo sobre a alta da gasolina e do diesel.

A tese de Lira e Bolsonaro é uma falácia. Mas o certo é que o deputado alagoano viu o novo cálculo ser aprovado e enviou o tema para o Senado, já dando por cumprida a missão de agradar ao chefe, o presidente da República.

A outra pauta polêmica, relativa ao MP, está se mostrando mais complicada. A resistência dos procuradores e promotores é grande, a mobilização é nacional. A votação que ele tentou fazer ontem foi adiada para semana que vem.

O ímpeto do deputado, no entanto, não arrefece. Acusou o presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República, Ubiratan Cazetta, de não cumprir acordos. Não se importa de ser acusado de capitanear uma operação para desfigurar o MP e favorecer a impunidade.

Arthur Lira não se importa com nada além de retribuir as benesses que seu grupo político recebeu.

A fatia cortada do ICMS fará falta aos estados? O MP deixará de ser uma das poucas alternativas de justiça efetiva no país?

Para ele, não faz diferença. O presidente da Câmara se mostra sempre disposto a tudo para quitar a dívida com o presidente, mesmo que isso custe caro ao Brasil.

Enquanto seu trator tiver força, ele o utilizará.

O alento para os oponentes é que no terreno acidentado da política brasileira, as máquinas podem enferrujar rapidamente ou - mais provável - ficar sem combustível.

Basta olhar o que aconteceu com alguns de seus antecessores na presidência da Casa para comprovar que mesmo máquinas que um dia foram possantes podem acabar abandonadas em um canto qualquer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL