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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jair Bolsonaro faz política no hospital e na Polícia Federal

3.jan.2022 - Bolsonaro publica foto em hospital após passar mal durante folga em SC - Divulgação/Twitter/@jairbolsonaro
3.jan.2022 - Bolsonaro publica foto em hospital após passar mal durante folga em SC Imagem: Divulgação/Twitter/@jairbolsonaro
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

05/01/2022 15h26

É verdade que governantes têm pouco espaço para privacidade, mesmo quando sofrem com problemas de saúde. Se um presidente é internado para cirurgia, a sociedade exige ser informada de todos os detalhes. As várias hospitalizações de Jair Bolsonaro, porém, têm nível inédito de exposição, passam da categoria de notícia para a de reality show.

Desde que recebeu a facada desferida por Adélio Bispo, em 2018, Bolsonaro passou por muitas cirurgias. No pós-operatório, o presidente exibiu imagens ao lado de líderes políticos, religiosos, familiares, artistas, gravou vídeo de passeios pelos corredores da enfermaria enquanto segurava a sonda, deu entrevistas coletivas, anunciou medidas de governo.

Apesar de todas essas performances, Bolsonaro, que deu entrada há dois dias no Hospital Vila Nova Star por causa de obstrução intestinal, reclamou hoje de quem o acusa de politizar as internações.

Na frase seguinte, provou que aqueles que fazem essa crítica estão cobertos de razão. Voltou a falar que Adélio tinha interesses políticos, destacou que o caso será investigado novamente (pela terceira vez!) e disse que a nova apuração vai revelar surpresas.

"Vai chegar em gente importante, com toda a certeza", declarou irresponsavelmente Bolsonaro, como sempre sem apresentar nenhuma prova.

Bolsonaristas sabem o quanto a facada no então candidato impulsionou a campanha a presidente e não deixam o assunto ser esquecido. Somente essa motivação explica que, depois que dois inquéritos da Polícia Federal concluíram que Adélio agiu sozinho, o caso seja revisitado mais uma vez.

Agora, o trabalho está cargo de Martin Bottaro Purper, delegado especializado em casos que envolvem crime organizado, como a facção Primeiro Comando da Capital (PCC). A nova apuração foi determinada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região em novembro, juntamente com a quebra dos sigilos bancário e telefônico do advogado Zanone Manuel de Oliveira, um dos defensores de Adélio.

A insistência nessa história é tal, que permite vários questionamentos. Um deles é saber se o novo delegado terá a missão de chegar à conclusão que mais agrada ao presidente. Saberemos em breve.

De qualquer forma, uma coisa é certa: Bolsonaro faz política no hospital e, mais grave ainda, também na Polícia Federal.