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Chico Alves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Capa com crítica a negacionismo marca novo álbum da banda Mundo Livre S/A

Capa do CD "Walking Dead Folia", do Mundo Livre S/A - Divulgação
Capa do CD "Walking Dead Folia", do Mundo Livre S/A Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

25/01/2022 04h00

Uma das principais referências do movimento Mangue Beat (junto com a Nação Zumbi, de Chico Science), a banda pernambucana Mundo Livre S/A está lançando o álbum "Walking Dead Folia". O trabalho, que celebra três décadas de um dos estilos mais marcantes da música brasileira contemporânea, aborda o momento político nacional de forma bastante crítica, a começar pela capa. A ilustração, criada pelo artista Wendell Araújo, tem referências ao negacionismo e aos impulsos fascistas que estão se incorporando à rotina do país, em um cenário de Carnaval.

Durante a mixagem de uma das faixas mais contundentes a música passou a soar como uma ciranda zumbi aterrorizante, o que acabou se tornando a chave para a definição do título. "Quando indicamos ao artista que a capa deveria enquadrar um cadáver, vítima de um plano vampiresco de saúde, ele teve a genial iniciativa de transpor a cena para o burburinho do carnaval underground pernambucano", relembrou à coluna Fred Zeroquatro, um dos integrantes do Mundo Livre S/A.

UOL - Por qual motivo fizeram um CD com posicionamento político tão forte?

Fred Zeroquatro - Essa é uma característica da banda. A gente sempre gostou de refletir nas músicas e nas letras tudo que a gente vivencia na experiência social e política do país. O público da banda já acompanha essa característica em álbuns como "O Outro Mundo de Manuela Rosário". São discos que sempre trouxeram essa veia mais política. Não dá pra uma banda com um perfil desse gravar um álbum em plena pandemia, não só sanitária como pandemia de negacionismo científico, sem refletir politicamente essa realidade. Então, não foi uma decisão difícil, né? Porque era algo que já se esperava, tanto o público quanto os parceiros da banda, em relação à temática desse álbum de pandemia, digamos assim.

Os militantes negacionistas e os de tendência fascista costumam reagir agressivamente às críticas. Você teme a reação?

Eu acho que a democracia brasileira não tem a menor chance de se desenvolver, de se consolidar, se as pessoas que estão do lado da justiça, da verdade e da ciência se acovardarem diante do fascismo. Então, se eu tiver de desistir da democracia, eu teria que desistir também do Brasil.

Qual o papel do artista em um momento como esse que o país atravessa?

O artista tem que estar do lado da liberdade, né? Não existe arte sem liberdade de expressão. Então o artista tem que defender o lado da democracia. Qualquer artista que preze o seu direito de exercer livremente a sua atividade, a sua vocação para a criação, não tem alternativa a não ser ficar do lado da democracia, do lado do posicionamento objetivo diante do debate nacional. Porque ele, o artista, pode ser uma das primeiras categorias a serem sacrificadas na possibilidade de avanço do fascismo e do autoritarismo no país.

Por fim a gente gostaria de manifestar nosso apoio ao SUS e nosso repúdio a qualquer tentativa de privatização da saúde no Brasil.