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Chico Alves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Saída de Milton Ribeiro do MEC não tira Bolsonaro do centro do escândalo

Presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ministro da Educação, Milton Ribeiro - Clauber Cleber Caetano/PR
Presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ministro da Educação, Milton Ribeiro Imagem: Clauber Cleber Caetano/PR
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

28/03/2022 16h25

Desde que surgiram as primeiras denúncias sobre a maracutaia dos pastores da Assembleia de Deus que decidem o destino de recursos do Ministério da Educação, o ministro Milton Ribeiro e o presidente Jair Bolsonaro agem como se não tivessem a ver com o escândalo. Ambos faltam com a verdade, mas, como era esperado, só Ribeiro sofreu as consequências - pediu exoneração do cargo.

Além da cobrança de propina em troca da instalação de escolas e creches, que vários prefeitos atribuem aos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura, um dos pontos centrais do esquema era a doação compulsória de recursos que iria para a construção de igrejas. O dinheiro era repassado por meio de compra de bíblias.

Kelton Pinheiro, prefeito de Bonfinópolis, em Goiás, explicou aos jornalistas Beatriz Araújo e Leandro Resende, da CNN Brasil, a proposta de Arilton Moura. Depois de se anunciar como amigo do ministro, o pastor disse ao prefeito que tinha um canal "para arrumar recursos".

Pinheiro detalhou aos jornalistas a abordagem do pastor: "Ele pediu para eu comprar mil bíblias do pastor Gilmar para ajudar na construção da igreja. Perguntei qual era o valor das bíblias, elas custavam R$ 50. E eu disse que não tinha condições de dar esse tipo de oferta para a igreja, porque era um valor alto e a prefeitura não poderia fazer esse tipo de compra".

Isso explica o contexto do áudio divulgado pela Folha de S. Paulo em que Milton Ribeiro conversa com os pastores e diz que uma das suas prioridades é atendê-los. Cita, a seguir, a contrapartida exigida dos prefeitos: "Então o apoio que a gente pede não é segredo, isso pode ser publicado, é apoio sobre construção de igrejas".

Assim que veio à tona a abjeta mistura de clientelismo, tráfico de influências e uso indevido da religião, Ribeiro correu para dizer que não tinha relação nenhuma com o cambalacho. A tese do ministro é desmentida pelo áudio. Ele próprio citou a "construção de igrejas".

Não bastasse a gravação, matéria dos jornalistas Breno Pires, Julia Affonso e Renata Cafardo, publicada hoje no Estado de S. Paulo, traz mais indícios da conivência de Ribeiro: bíblias compradas pelo prefeito de Salinópolis nessa negociação clandestina traziam as fotos de Milton Ribeiro e dos dois pastores que servem de intermediários.

Como se não tivesse nada a ver com o caso, Jair Bolsonaro defendeu Ribeiro dizendo que colocava a "cara no fogo" por ele. Quer fazer esquecer que indicou ao ministro os dois pastores acusados de picaretagem.

"Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do pastor Gilmar", disse Ribeiro na gravação.

Em outra oportunidade, na entrevista à jornalista Renata Agostini, da CNN Brasil, o ministro reiterou: "Recebi dois pastores a pedido do presidente, foi aí que os conheci".

A exoneração de Milton Ribeiro do Ministério da Educação serve ao presidente para dar uma satisfação às lideranças evangélicas que o apoiam e ao eleitorado bolsonarista. Mas não o desobriga de explicar os motivos que o levaram a indicar Gilmar Santos e Arilton Moura ao ministro. Tem também que justificar o pedido de atendimento preferencial.

Bolsonaro pode fazer os movimentos que quiser para embaçar suas responsabilidades, mas a verdade é uma só: sem a indicação dos pastores pelo presidente, o escândalo no MEC não existiria.