PUBLICIDADE
Topo

Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como um animal acuado, Bolsonaro segue perigoso

Presidente Jair Bolsonaro - Adriano Machado/Reuters
Presidente Jair Bolsonaro Imagem: Adriano Machado/Reuters
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

13/04/2021 12h41

* Raphael Tsavkko Garcia

A primeira reação de um animal acuado é reagir. Em geral, de forma violenta. Essa regra vale também para muitos seres humanos e hoje, mais do que nunca, para o presidente Jair Bolsonaro.

A diferença entre nós e os simples animais talvez esteja na capacidade de refletir antes de reagir, de maneira a evitar reações desesperadas e fúteis diante de uma situação incômoda. Nem sempre conseguimos ser racionais, claro, mas Bolsonaro talvez seja o exemplo mais próximo de um animal acuado que, sem saber o que fazer, reage da forma mais grotesca possível.

Diante da decisão do ministro Barroso, do STF, ordenando a instauração da CPI da Covid pelo Senado, Bolsonaro novamente se viu acuado, nas cordas. Sua reação foi exatamente a esperada - sem sentido, destrambelhada, violenta e perigosa para a democracia brasileira.

Se enganam os que acham que o presidente representa um perigo para a democracia por existir algum plano orquestrado ou estratégia delineada. Bolsonaro é um perigo exatamente por não ter a menor ideia do que está fazendo e, com isso, dificulta a reação dos oponentes, dada a total imprevisibilidade de suas ações.

As decisões de seus principais aliados são igualmente incompreensíveis. Poucas vezes passam da provocação infantil e burra, pese causar reais consequências. Vide o símbolo nazista desenhado por Filipe Martins, assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, ou praticamente todas as ações e declarações do ex-chanceler Ernesto Araújo que, na sua vontade de agradar ao chefe e atacar todo e qualquer país que não se alinhasse a sua visão de cruzado cristão, simplesmente causava incidentes diplomáticos sem absolutamente qualquer plano de contenção ou alternativa.

Era de se esperar que para brigar com a China o Brasil tivesse algum plano, um outro aliado, um outro parceiro disposto a assumir o lugar. Mas não, eram apenas ataques insensatos de uma mente pequena e limitada respondendo às ordens de outra figura com capacidade mental limitada.

O mesmo se repete ad nauseam por quase toda estrutura do governo Bolsonaro.

Isso não quer dizer, claro, que todos sejam iguais. Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, tem sido bem-sucedida em destruir diversas conquistas nos direitos humanos, impondo uma agenda conservadora em várias áreas, algo fundamental na manutenção do apoio evangélico ao presidente. Damares talvez seja uma das raras ministras que tenham de fato uma agenda e que estejam seguindo à risca o planejado - e cujo plano faz sentido, mesmo que de uma forma distorcida e francamente assustadora.

Voltando a Bolsonaro, sua reação diante da autorização para abertura da CPI foi exatamente a esperada. Ele partiu para o ataque contra o STF, conspirando com um senador, Jorge Kajuru (Cidadania-GO), para tentar intimidar os ministros a recuarem.

A grande questão aqui é a insistente visão do bolsonarismo de que o STF joga contra ele. Antes fosse verdade. No caso específico, Barroso apenas seguiu a lei e forçou o Senado a agir, pois este havia se furtado em suas obrigações. Não houve intervenção indevida, ativismo judicial ou qualquer ato fora da norma.

Se é verdade que o STF é conhecido por, seguidas vezes, extrapolar as suas funções, desta vez nada poderia ser mais diferente. Tampouco se sustenta a acusação de que o Supremo teria agido de forma inédita para prejudicar Bolsonaro, pois, durante os governos Lula e Dilma, a Corte foi forçada a empurrar o Parlamento a cumprir sua função.

O problema, no entanto, foi a forma pela qual o STF, mais uma vez, recebeu a onda de ataques e as novas ameaças de Bolsonaro: com despreocupação. Um animal acuado é perigoso, não importa o quão irracional seja. Daí o perigo de deduzir que seja mero teatro a reação do presidente, ainda mais diante de incontáveis demonstrações de Bolsonaro e de seus apoiadores de desrespeito às instituições e à democracia

Mesmo que muitas dessas demonstrações sejam destrambelhadas, infantis ou mesmo toscas - como o grupo fascista comandado por Sara Winter que planejava invadir instituições, mas que foi rapidamente desbaratado -, a insistência de grupos em ir às ruas desrespeitar medidas de restrição, de espalhar a covid livremente, de se insurgir contra regras mínimas como uso de máscara, ou mesmo levar adiante protestos em favor de um golpe militar com entornos teocráticos, é extremamente perigosa.

Se, individualmente, não passam de ações potencialmente risíveis, em conjunto cria-se um clima de insurgência e insurreição que pode eventualmente ganhar força. Ao considerá-las mero teatro o Supremo perde, mais uma vez, a oportunidade de agir de forma firme e cortar o mal pela raiz.

Bolsonaro, animal acuado, precisa ser enjaulado e colocado para dormir - seja via impeachment ou quaisquer outros meios necessários e legais -, e não seguir livre em suas tentativas de reação que, um dia, podem acabar ferindo gravemente a democracia brasileira, se é que não já feriu e nós ainda não fomos capazes de perceber tal gravidade.

A existência de grupos favoráveis à ditadura e de fundamentalistas religiosos não é nova; o que parece inédito, no entanto, é que, pela primeira vez, esses grupos estão não apenas no poder (é bom lembrar que grupos fundamentalistas foram grandes parceiros do projeto de poder petista), mas encontram no presidente e em seus ministros eco às suas loucuras e pregações odiosas.

A aliança, agora, transcende a mera conveniência, constituindo uma coalizão ideológica, o que corresponde a uma ameaça sem precedentes para a democracia brasileira.

* Raphael Tsavkko Garcia é jornalista e doutor em direitos humanos pela Universidade de Deusto. Contribuiu para veículos como Foreign Policy, Undark, The Washington Post, Deutsche Welle, entre outros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL