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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Exército pavimenta caminho para um Estado bolsochavista

23.mai.2021 - O presidente Jair Bolsonaro discursa em um comício no Rio de Janeiro, Brasil, em 23 de maio de 2021, ao lado do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Manifestação foi marcada pelo descumprimento do isolamento social e outras medidas de combate à covid-19. - ANDRE BORGES / AFP
23.mai.2021 - O presidente Jair Bolsonaro discursa em um comício no Rio de Janeiro, Brasil, em 23 de maio de 2021, ao lado do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Manifestação foi marcada pelo descumprimento do isolamento social e outras medidas de combate à covid-19. Imagem: ANDRE BORGES / AFP
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

03/06/2021 17h57

* Vinícius Rodrigues Vieira

Ao evitar punir o general Eduardo Pazuello por participação em ato político ao lado do presidente Jair Bolsonaro, o Comando do Exército abre as portas em definitivo para que o atual mandatário do país transforme nossa força terrestre numa extensão de seu poder pessoal. A sigla EB não faz mais jus ao significado original — Exército Brasileiro. A partir de 3 de junho de 2021, deve ser entendido como Exército Bolsonarista, tal e qual uma milícia privada.

Simbólico que, no mesmo dia, em Rio das Pedras — área dominada por milicianos de verdade —, um prédio tenha caído, ceifando a vida de uma menina e seu pai. É a trágica — embora perfeita — metáfora de um país em escombros, dominado por foras-da-lei e agentes do Estado que, em vez de defender a Constituição, dão as costas para ela e o povo que a promulgou em 1988 contra a desordem econômica e social legada pelos patifes de 1964: lembrem-se que a criminalidade começou a crescer já nos anos 1970, década em que as sementes para a expansão da desigualdade foram semeadas junto com o milagre econômico brasileiro.

O Comandante do Exército, general Paulo Sérgio, deixa suas digitais numa das páginas mais horrendas da história da instituição. Encorajados pela leniência com a qual Pazuello foi tratado, cabos e soldados — inclusive das polícias militares — não se furtarão a fazer campanha para Bolsonaro em 2022, que, assim, tem tudo para nos enfiar goela abaixo uma contestação armada do resultado das próximas eleições presidenciais. Nesse cenário, os praças mais simpáticos ao bolsonarismo vão atuar como guarda pretoriana de um presidente que, tudo indica, fará o diabo para se manter no poder.

Não duvido se membros do Alto Comando recusarem-se a engolir tamanha covardia a seco. Trata-se de uma afronta não apenas a valores como hierarquia e disciplina — principíos fundamentais de qualquer força profissional. Parafraseando o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estamos vivendo um bolsochavismo de fato.

Ao perdoar Pazuello, o general Paulo Sérgio também deu as costas aos anseios manifestados ontem (2) nas grandes cidades, em que panelas ecoaram enquanto Bolsonaro pintava em pronunciamento no rádio e na TV um país inexistente, em que crescimento econômico vale mais que a vida de quase 500 mil cidadãos.

Parafraseando Churchill em relação à política de apaziguamento dos britânicos para com os nazistas antes da Segunda Guerra Mundial, o Exército escolheu a desonra para evitar um conflito imediato com Bolsonaro. Terá a instituição de aguentar o fardo da parvoíce sem, no entanto, fugir da guerra. Se não hoje, ela virá em 2022, quando o presidente se agarrar à cadeira presidencial sob a proteção de neomilicianos travestidos de soldados de Caxias.

* Vinícius Rodrigues Vieira é doutor em Relações Internacionais por Oxford e professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na FGV

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL