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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Equivalência entre Lula e Bolsonaro é o novo antipetismo

12.jun.2021 - Lula se reúne com lideranças comunitárias no Rio de Janeiro - Lola Ferreira/UOL
12.jun.2021 - Lula se reúne com lideranças comunitárias no Rio de Janeiro Imagem: Lola Ferreira/UOL
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

25/06/2021 11h44

* Cesar Calejon

Sem demonstrar elementos sólidos para corroborarem as suas afirmações, muitos membros da direita liberal, que por vezes tentam ser percebidos como "centristas equilibrados", incluindo jornalistas, empresários, filósofos, atores, atrizes e figuras públicas de forma mais ampla, tentam reformular o antipetismo com base na falácia que pretende caracterizar o ex-presidente Lula e Jair Bolsonaro como dois fundamentalistas de extremos opostos a serem combatidos pelo bem do Brasil.

Órfãos do lavajatismo e da pretensa "luta contra a corrupção", essa parcela da população que, via de regra, mas não invariavelmente, é branca, heterossexual e residente nos metros quadrados mais caros do país, ignora a sua responsabilidade considerando a ascensão do próprio bolsonarismo em 2018 e busca agora dar nova roupagem ao intento de criminalizar os partidos (e líderes) à esquerda no espectro político-ideológico, afirmando que esses seriam grupos extremistas em busca de delírios comunistas, o que caracterizaria uma posição antípoda, porém tão radical quanto, à adotada pelo atual presidente da República.

Esse movimento é extremamente perigoso, tendo em vista precisamente os efeitos que ele foi capaz de produzir da última vez que foi implementado, porque, a despeito dos argumentos jurídicos oficiais que foram utilizados, o antipetismo foi a principal narrativa do impedimento de 2016 e virou uma espécie de mantra que dispensava a verificação da sua veracidade para a maior parte da população brasileira naquele momento.

Fundamentalmente, os grupos que hoje se esforçam para caracterizar o ex-presidente Lula como um radical avançaram o antipetismo para destituir, à margem da lei, a então presidenta Dilma e para impedir o próprio Lula de concorrer no último pleito presidencial. O raciocínio reducionista que foi usado com muita eficácia na ocasião afirmava que o PT era uma "quadrilha" liderada pelo político mais corrupto da nação e que teria "quebrado o Brasil".

Dessa forma, o projeto de impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, abalou as instituições do Brasil a tal ponto, que, depois do processo, a institucionalidade brasileira foi literalmente destruída e o resultado final pode ser contado em números absolutos de mortes atualmente.

O Poder Executivo vagou na incerteza do governo Temer, o Poder Legislativo estava completamente desmoralizado e o Poder Judiciário ganhou um protagonismo que foi muito além do que efetivamente permite a Constituição do Brasil. Ou seja, o impeachment catalisou a desestruturação completa das nossas instituições.

Uma simples análise, contudo, basta para desmontar a nova tentativa de reavivar o antipetismo, assim como também era suficiente para desacreditar a falsa ideia na primeira ocasião.

Ao avaliarmos indexadores como a taxa de conversão do dólar estadunidense frente ao real brasileiro, o preço médio do litro da gasolina, do botijão de gás de cozinha, o volume das reservas internacionais, o PIB nacional e a posição da economia do Brasil frente aos outros países do mundo, o índice de Gini e a atual taxa de desemprego, por exemplo, torna-se evidente que as administrações Lula e Bolsonaro simplesmente não podem ser vistas como dois polos radicalmente opostos e igualmente deletérios para o Brasil.

No dia 19 de junho de 2013, quando as Jornadas de Junho atingiram o ápice das manifestações populares e o processo de desestabilização da República foi agudizado, o dólar americano valia R$ 2,1783 (compra). Hoje, estamos em R$ 5,02. No fim daquele ano, no dia 1º de dezembro, o litro da gasolina custava, em média, R$ 2,59. Hoje, estamos em mais de R$ 5. Nessa mesma data, o botijão tradicional de gás de cozinha custava R$ 42,44. Hoje, custa acima de R$ 100.

A desocupação oficial, ainda em dezembro de 2013, era de 4,3%, menor taxa já registrada desde o início da série histórica, que foi iniciada em março de 2002, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Atualmente, dados apontam que encerraremos o ano com 14,5%.

Ainda no governo petista, em setembro de 2015 e com o antipetismo assumindo força total, as reservas internacionais do Brasil junto à sociedade internacional eram de US$ 370,8 bilhões e o país chegou a ser a sexta maior economia do mundo. Hoje, esse valor caiu para US$ 356,88 bilhões e não estamos sequer entre as principais dez maiores economias do planeta.

Aumentamos o valor do Índice de Gini: de 0,498 em 2013 para 0,509 em 2020, segundo ano do governo Bolsonaro. Boa notícia, certo? Não. Infelizmente, esse indexador significa que, quanto mais alto o número, mais desigual é o país. Vale ressaltar que todos esses dados são fornecidos por instituições sérias e idôneas, muitas vezes internacionais e que não possuem sequer elementos (ou interesse) para participar do nosso jogo geopolítico doméstico.

Frente à destruição sem precedentes promovida pelo bolsonarismo, as últimas pesquisas de opinião parecem deixar claro que a população brasileira tem memória — e, principalmente, senso de sobrevivência.

* Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (EACH-USP). É, também, autor do livro "A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI" (Lura Editorial).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL