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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro já tem pretexto para incendiar o país e esquerda ajudou nisso

 Bolsonaro, no cercadinho do Alvorada:  "só na fraude" Lula volta à presidência - Reprodução/Foco do Brasil
Bolsonaro, no cercadinho do Alvorada: 'só na fraude' Lula volta à presidência Imagem: Reprodução/Foco do Brasil
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

21/06/2021 12h45

"Nem tudo aquilo que Bolsonaro propõe é ruim apenas porque ele propôs. É o caso do voto impresso auditável". Quem diz isso, e não é de hoje, é o insuspeito professor da USP Pablo Ortellado, especialista em gestão de política pública, de quem não se pode dizer que tenha ligações ou simpatias bolsonaristas.

Ortellado considera "bastante razoável" a ideia de um sistema que permita a impressão do voto eletrônico como forma de ampliar as possibilidades de conferência dos resultados da eleição, mas observa que, no Brasil, discutir as vantagens e desvantagens do modelo virou tarefa impossível.

Isso porque, diz, Bolsonaro virou um Midas ao contrário: tudo em que ele põe a mão fenece ou descamba para uma final de jogo com pancadaria. A culpa pelo fenômeno, nesse caso, não é só do ex-capitão e seu histórico de ideias fixas, oportunistas e letais, mas da polarização cega e furiosa que ensurdece, emburrece e inviabiliza qualquer debate hoje no Brasil.

O voto impresso para fins de conferência não é nenhuma jaboticaba.

Ele existe de alguma forma em 30 dos 46 países que adotam o sistema de voto eletrônico - ou seja, na maior parte deles. Esses países optaram pelo modelo não porque desejam "ressuscitar o voto de cabresto", como se repete por aí (o que, de resto, não vale como argumento, dado que o eleitor não tem acesso à cédula impressa, que cai automaticamente na urna), mas porque entendem que ele serve para ampliar as possibilidades de checagem da apuração e, portanto, aumentar a segurança de uma eleição.

Mas a implementação do voto impresso auditável não é coisa simples. Só para começar, as urnas que receberiam os votos impressos teriam de ser projetadas, depois armazenadas e mais tarde transportadas para os locais de contagem dos votos. Demandaria praticamente o mesmo esforço e planejamento que exige uma votação não eletrônica.

Vale a pena? É o tipo de discussão que não se ouve e não se ouvirá, dado que quem se atreve hoje a dar palpite em favor do voto impresso é imediatamente alçado à condição de bolsonarista; e quem é contra Bolsonaro tem obrigação de ser também contra o voto impresso.

Assim, o ex-capitão segue livre para, com sua conversa de fraude anunciada, repetida hoje no cercadinho do Palácio da Alvorada, se colocar como vítima de mais uma conspiração em caso de derrota em 2022. Será um discurso com consequências incendiárias, e que poderia ser esvaziado se tivesse sido precedido de um debate técnico e desapaixonado sobre a pertinência ou não do voto impresso, depois da qual o Brasil poderia chegar inclusive à conclusão de que do jeito que está, está bom.

Mas isso exigiria uma discussão com base na razão e nisso parece que nem bolsonaristas nem anti-bolsonaristas estão muito interessados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL