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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um dos artífices do bolsonarismo, MBL se volta contra seu Frankenstein

O coordenador do MBL Renan Santos, no escritório do MBL, na Vila Mariana, em São Paulo - Eduardo Anizelli/Folhapress
O coordenador do MBL Renan Santos, no escritório do MBL, na Vila Mariana, em São Paulo Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

12/09/2021 12h32

* Cesar Calejon

A ascensão do bolsonarismo foi amplamente viabilizada por conta do sentimento antissistema que o golpe organizado contra Dilma Rousseff gerou na maior parte da população brasileira.

Na ânsia de assumir o poder subvertendo o resultado das eleições de 2014, a direita liberal e a maior parte das mídias hegemônicas nacionais se utilizaram de movimentos políticos como o MBL (Movimento Brasil Livre), o Livres e o Vem Pra Rua para atacar a gestão petista, o que funcionou, mas acabou por desacreditar toda a política institucional do país e, consequentemente, elegeu o governo Frankenstein do bolsonarismo que hoje esses mesmos grupos tentam derrubar.

Figuras como João Amoedo, João Doria e Alvaro Dias são alguns dos principais líderes envolvidos na convocação para os atos desse domingo (12). Evidentemente, a causa é nobre e Bolsonaro deve, sim, sofrer o impeachment e responder pelos seus crimes, mas a desfaçatez desses grupos sociopolíticos não pode simplesmente passar incólume, até porque ela é parte fundamental para entender a situação dantesca que nos assola e evitar que ela se repita.

Essa desfaçatez e a falta de respeito ao jogo democrático são as mesmas características que fazem com que o próprio Bolsonaro declare guerra ao STF e às instituições brasileiras no dia 7 de Setembro e, apenas um dia depois, peça auxílio a Michel Temer, um dos grandes símbolos do golpismo e do fisiologismo brasileiro, para voltar atrás e dizer que agiu no "calor do momento".

Como no romance de Mary Shelley, o monstro criado por Victor Frankenstein adota métodos desumanos e antiéticos similares aos que foram empregados na sua criação e passa a fazer demandas, eliminando as pessoas para reforçar as suas exigências, inclusive, o seu próprio criador ao término do livro. Finalmente, o monstro chega a desejar o seu próprio fim por não aceitar a dor e a solidão que o acometem.

Soa familiar? Isolado e combalido, Bolsonaro admitiu, no último sábado (11), que "a vida de presidente não é fácil, se alguém quiser trocar, eu troco agora".

Sem dúvida, contudo, as principais lideranças da esquerda erraram ao não se anteciparem no sentido de lançar o primeiro ataque após a carta redigida por Temer e que enfraqueceu ainda mais a adesão ao bolsonarismo. Política institucional é feita de momentos e oportunidades. Senso oportunístico é o que essas figuras que convocam hoje às ruas têm de sobra, conforme já demonstraram em outras ocasiões.

A maior parte dos grupos que hoje saem para pedir o impeachment de Bolsonaro assim o fazem porque foram descartados das posições de poder que sempre almejaram conquistar.

Evidentemente, a questão central não é a defesa da democracia brasileira ou da soberania do voto popular. As análises que defendem a legitimidade dos atos de hoje por meio desses argumentos simplesmente esquecem de considerar que quem apoiou a recontagem de votos de Aécio Neves, o impeachment sem crime de responsabilidade de Dilma Rousseff, o conluio jurídico-midiático da Lava-Jato e a inelegibilidade de Lula em 2018 não pode estar muito preocupado com esses valores republicanos e democráticos apenas alguns anos depois.

Talvez, esses analistas também apoiem os atos de hoje, porque, assim como os grupos envolvidos com as convocações desse domingo, acabaram por se arrepender do monstro que ajudaram a criar.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter) e Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL