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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mendonça será a maior herança maldita de Bolsonaro

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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

16/12/2021 21h14

Vinícius Rodrigues Vieira

Empossado hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o "terrivelmente evangélico" André Mendonça pode permanecer na mais alta corte do país por 27 anos. Isso significa que, por quase três décadas, ainda vamos sofrer de forma significativa os efeitos da passagem de Jair Bolsonaro (PL) pelo Planalto.

Não bastam mais de 600 mil mortos numa pandemia, a crise econômica e todo o desgoverno do capitão. A julgar pelo seu histórico de bons serviços prestados ao bolsonarismo, Mendonça equivale a um marreteiro cuja função é causar ainda mais rachaduras no combalido edifício constitucional da Nova República.

Ainda que derrotado em suas posições em plenário, Mendonça trará em cada exposição oral e voto escrito a marca de um governo que oprime minorias, é contra a preservação do meio ambiente e vislumbra na democracia um meio de corrompê-la, dando voz a uma pretensa maioria que busca impor sua fé como principal parâmetro para a formulação de políticas públicas.

Não é a condição de pastor presbiteriano que faz de Mendonça um prócere do bolsonarismo. O problema do novo integrante do STF consiste no autoritarismo perpetrado contra a imprensa e opositores do presidente durante sua passagem como Ministro da Justiça e Advogado-Geral da União do governo Bolsonaro.

O presidente não o indicou ao STF, portanto, por ser apenas "terrivelmente evangélico". Deve ter prevalecido aos olhos de Bolsonaro o lado "terrivelmente autoritário" de Mendonça. O fato de ele ser evangélico serviu apenas ao propósito de fazer proselitismo com o segmento religioso que, em 10 anos, deve se tornar majoritário no país.

Todos os ministros do STF, em maior ou menor escala, acabam por demonstrar algum grau de lealdade política ao chefe de Estado que os indicou. O problema de Mendonça, porém, consiste em ter se comportado como um servidor fiel do atual ocupante da cadeira presidencial em vez de ajoelhar-se no altar da Constituição. Tal postura não deve mudar uma vez empossado em sua nova função.

Em sua sabatina no Senado, Mendonça prometeu seguir em suas decisões supremas a Carta Magna em vez da Bíblia. Tal discurso, no entanto, pode ter sido para inglês ver. Nisso, aliás, o bolsonarismo é craque: dá sinais de apaziguamento apenas para, num momento oportuno, tentar avançar sobre as instituições.

O novo ministro do STF integra essa tática de contaminar a democracia por dentro de modo a destruí-la paulatinamente. Eis a herança maldita de Bolsonaro: deixar nossa corte constitucional e, portanto, a democracia com o DNA alterado. Ambas ficam, assim, ainda mais propensas à violação de direitos fundamentais nos próximos 30 anos, período durante o qual o bolsonarismo ainda promete fazer bastante barulho na política e na religião e, deste modo, na vida de cada um dos brasileiros — inclusive os que ainda não nasceram.