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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com MDB-PSDB, terceira via tem o desafio de superar retórica do medo

Senadora Simone Tebet (MDB) em evento de campanha à presidência - Divulgação
Senadora Simone Tebet (MDB) em evento de campanha à presidência Imagem: Divulgação
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

20/06/2022 00h37

* Raul Galhardi

Costuma-se dizer que as pesquisas eleitorais são retratos do momento e que o eleitor brasileiro deixa para decidir seu voto apenas na última hora. Se isso for verdade, a chapa à Presidência formada no último dia 9 de junho por MDB e PSDB em torno do nome da senadora Simone Tebet (MDB-MS) pode ser um "sopro de esperança", embora ainda muito frágil, aos eleitores da chamada "terceira via" ou "nem nem", como também são conhecidos aqueles que não desejam nem Lula (PT) nem Bolsonaro (PL).

Em seu melhor desempenho, por enquanto, Tebet não ultrapassa 2% das intenções de voto totais nas pesquisas, mas levantamentos recentes revelam uma falta de definição do voto de boa parte do eleitorado indicando que, apesar das campanhas de medo feitas por bolsonaristas e petistas alimentando os fantasmas do "comunismo" e do "fascismo", respectivamente, fatia significativa dos eleitores não tem Lula ou Bolsonaro como certezas de voto.

De acordo com pesquisa da Quaest, divulgada na última semana, quando questionados em quem votariam de forma espontânea (metodologia na qual os nomes dos candidatos não são apresentados), 42% dos entrevistados se mostraram indecisos.

Outro dado que dá esperança aos postulantes ao cargo de presidente por esse campo "nem nem" vem da última pesquisa Datafolha do dia 26 de maio. Segundo ela, 42% dos entrevistados dizem que pretendem votar nos seus escolhidos porque não há opção melhor, enquanto 1% não soube responder.

Há, portanto, uma parcela de eleitores, tanto de Lula quanto de Bolsonaro, que colocam a rejeição ao outro candidato como fator decisivo no seu voto.. São os "antibolsonaristas" e os "antipetistas", que, na falta de uma candidatura de peso pela "terceira via", por enquanto preferem declarar voto em um dos dois.

Independente, mas nem tanto

O acerto sobre a candidatura de Simone Tebet foi costurado no gabinete do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), cotado para ser o vice da chapa. Se esse acordo se confirmar, pela primeira vez em 33 anos o PSDB não terá um representante como cabeça de chapa na corrida presidencial.

Tanto Tebet quanto Tasso possuem viés liberal e sua chapa teria a simpatia do mercado e de setores da mídia tradicional, embora, segundo o último Datafolha, 56% dos empresários considerem o governo Bolsonaro "ótimo ou bom". Entretanto, há a esperança por parte dos partidos da chapa que, com a oficialização da candidatura, boa parte do empresariado venha a apoiá-la nas eleições.

Essa postura liberal de ambos fica evidente na concordância que possuem em relação às pautas econômicas. Nas 23 votações referentes à reforma da Previdência, os dois se posicionaram da mesma forma, assim como pela autonomia do Banco Central e privatização da Eletrobras, segundo levantamento do Globo. Conforme dados disponibilizados pelo Senado, os dois concordaram em 89% das 490 votações analisadas de 2015 a 2022.

Porém, apesar de se apresentar como "independente", de acordo com dados do Congresso em Foco a senadora votou majoritariamente com o governo Bolsonaro em 86% dos casos, embora tenha se destacado como figura de oposição ao governo durante a CPI da Covid.

Seu partido, MDB, o qual oficialmente assume uma postura de "independência" em relação ao governo federal, também votou junto com ele em 88% dos casos avaliados. Segundo o site jornalístico, esse alinhamento supera a média da Câmara (que hoje vota com Bolsonaro em 75% das deliberações) e a do Senado (83%).

Foi nas pautas econômicas, de cunho liberal, que Tebet mais se alinhou ao governo Bolsonaro, como na reforma da Previdência, na autonomia do Banco Central, no Novo Marco Legal do Saneamento Básico e na Lei da Liberdade Econômica. Já nas questões ligadas à educação, aos costumes e à cultura, ela tem se posicionado contra o governo, informa O Globo. Porém, quando o tema é aborto, Tebet foi uma das quatro parlamentares que não quiseram se posicionar sobre o tema em pesquisa do Globo feita com todas as deputadas e senadoras.

O dilema de Ciro

Embora não se considere da "terceira via" por não compartilhar da ideologia liberal, Ciro Gomes é outro pré-candidato que corre por fora da disputa entre Lula e Bolsonaro e que também se encontra em uma situação muito difícil. Com 9% de intenções de votos em média, se antes o ex-governador do Ceará parecia consolidar-se como o único candidato com alguma chance entre os eleitores desse campo, agora deverá dividir votos com Tebet.

A análise de Ciro é a de que Bolsonaro, devido às más gestões da economia e da pandemia, não está garantido no segundo turno e que, portanto, ele poderia ocupar esse espaço da disputa. Para isso, porém, o ex-governador precisa ter sucesso em uma missão quase impossível: atrair, ao mesmo tempo, eleitores de direita e esquerda, dialogando não apenas com os "nem nem", mas também com aqueles que, sem muito entusiasmo, votam em Lula para tirar Bolsonaro (antibolsonaristas) ou votam em Bolsonaro para evitar o retorno de Lula (antipetistas).

O principal problema de sua campanha encontra-se justamente na relação com esses dois últimos públicos. Se no primeiro turno Ciro precisa atrair os antibolsonaristas para tirar Bolsonaro do segundo turno, no segundo ele precisa fazer o movimento oposto, atraindo os antipetistas para derrotar Lula nas eleições.

Essa é uma tática extremamente difícil de ser aplicada em um país polarizado como o Brasil, até agora refém da retórica do medo levada adiante pelos dois principais pré-candidatos, que desejam terem um ao outro como adversários ideais para alimentarem seus discursos perante suas militâncias.

Soma-se a isso o fato de que a sociedade brasileira não possui o costume de debater projetos de forma profunda, sendo normalmente mais inclinada a discutir nomes de indivíduos do que ideias a longo prazo que realmente transformem o país, o que para o ex-ministro é um grande problema, já que o seu projeto é o seu principal diferencial em relação aos outros pré-candidatos.

Malvisto pela mídia tradicional, pela esquerda petista, por liberais e sem base social forte, Ciro tem, portanto, enormes dificuldades em alcançar a maior parte do eleitorado brasileiro para apresentar o seu PND (Projeto Nacional de Desenvolvimento), único até o momento de cunho claramente intervencionista na economia.

A única chance de Ciro, Tebet ou de qualquer candidatura de "terceira via" chegar ao segundo turno é conquistando integralmente o campo "nem nem" e absorvendo simultaneamente os votos antipetistas e antibolsonaristas.

Para Tebet, é mais fácil trazer para si os votos antipetistas e antibolsonaristas de direita, mas ela praticamente não dialoga com esses eleitores do campo da esquerda. Já o ex-governador possui alguma inserção entre os antipetistas e antibolsonaristas de esquerda e procura, agora, "furar a bolha" e dialogar com esses grupos de eleitores do campo da direita.

Uma união das duas chapas (Ciro e Tebet) poderia gerar uma forte concorrência a Lula e Bolsonaro e consistiria na maior chance que ambos teriam de conseguir chegar ao segundo turno, mas não parece ser do interesse de nenhum dos dois a criação de apenas uma candidatura.

Apesar da novidade da chapa MDB-PSDB, o cenário que permanece, por enquanto, é o do favoritismo de Lula. No entanto, a quase quatro meses das eleições em 2018, a maioria dos especialistas e veículos de comunicação não apostava em uma vitória de Bolsonaro.

Não é impossível, portanto, que ocorra uma reviravolta no pleito, mas para isso o eleitor brasileiro precisa se vacinar contra a retórica do medo para discutir projetos e propostas que impeçam o futuro de repetir o passado. Seja o passado imediato de morte e destruição perpetrados pelo catastrófico governo Bolsonaro, seja o passado dos governos petistas, que criaram as condições para o surgimento do bolsonarismo por meio de ações, omissões e erros em série.

* Raul Galhardi é jornalista e mestre em Produção Jornalística e Mercado pela ESPM-SP