PUBLICIDADE
Topo

Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro se precipitou ao usar Milton Ribeiro como "boi de piranha"

Conteúdo exclusivo para assinantes
Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

23/06/2022 16h21

Cesar Calejon*

Em menos de dois dias, Milton Ribeiro, ex-ministro da Educação do governo Bolsonaro, foi preso, rodou as principais manchetes de todo o país e, na tarde de hoje, foi solto por determinação do magistrado Ney Bello, do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região), que ordenou também a soltura dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura.

Na ânsia de se livrar dos danos que a prisão de Ribeiro poderia causar à sua imagem e de olho no pleito presidencial de outubro, Bolsonaro veio a público, prontamente, lavar as mãos no que diz respeito à atuação do seu até então aliado. Imputou-lhe a condição de "boi de piranha" para tentar resolver duas questões com um único movimento: distanciar-se do ex-ministro encarcerado e legitimar a sua posição de não interferência junto à Polícia Federal.

Milton Ribeiro em culto - Reprodução/YouTube - Reprodução/YouTube
Milton Ribeiro em culto
Imagem: Reprodução/YouTube

Afoito, o presidente disse que Milton Ribeiro deve responder "(...) pelos atos dele. Eu peço a Deus que não tenha problema nenhum. Mas, se tem algum problema, a PF está agindo, está investigando, é um sinal que eu não interfiro na PF, porque isso aí vai respigar em mim, obviamente".

Nesse sentido, a detenção relâmpago do ex-ministro, que foi acusado de corrupção para atender os interesses do próprio presidente da República frente a políticos evangélicos demonstrou, na prática, como Bolsonaro trata os seus próprios aliados.

Milton Ribeiro afirmou, em março deste ano, que apenas obedecia "ordens do presidente" e que a negociata havia sido um "pedido especial" de Jair Bolsonaro. Ontem, Bolsonaro afirmou à rádio Itatiaia que "(...) o caso do Milton (Ribeiro), pelo que eu estou sabendo, é aquela questão que ele estava, estaria com a conversa meio informal demais com algumas pessoas de confiança dele. E daí houve denúncia que ele teria buscado prefeito, gente dele para negociar, para liberar recurso, isso e aquilo. E o que aconteceu? Nós afastamos ele. Se tem prisão, é Polícia Federal. É sinal que a Polícia Federal está agindo".

Até o ex-presidente Lula, que segue na liderança pela Presidência da República, disse que o caso é um escândalo, mas que o "(...) direito à defesa é (um) valor monumental".

Dadas essas circunstâncias e a precipitação de Bolsonaro em fritar o seu aliado, é difícil que os eventos dos dois últimos dias passem batido pelos parlamentares que apoiam o bolsonarismo.

Seguramente, essas pessoas notaram, de forma muito atenta, o desespero e a falta de hombridade do bolsonarismo no que diz respeito a crucificar amigos de outrora quando as coisas realmente apertam. Os apoiadores de hoje estão calculando o risco porque, ao que tudo indica, elas deverão apertar - e muito - ao longo dos próximos meses.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter), Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente) e Sobre Perdas e Danos: negacionismo, lawfare e neofascismo no Brasil (Kotter).