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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CPI do MEC será 'pá de cal' no bolsonarismo

17.set.22 - Milton Ribeiro em evento do MEC - Catarina Chaves/MEC
17.set.22 - Milton Ribeiro em evento do MEC Imagem: Catarina Chaves/MEC
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

28/06/2022 15h36

* Cesar Calejon

Envolto por devaneios de onipotência, desde março de 2020, com a chegada da pandemia, Jair Bolsonaro optou, reiteradamente, por alinhar-se ao vírus da covid-19 contra a população brasileira, com sérias consequências para a vida dos cidadãos e para a economia nacional.

Corrompido pela ilusão do controle absoluto, tal qual diversos autocratas ao longo dos últimos séculos, o presidente brasileiro incorreu em equívocos homéricos que lhe custaram, para além dos seus cargos, as suas próprias reputações na história.

Contudo, ao escolher defender a posição indefensável na qual ele próprio colocou o seu ex-ministro Milton Ribeiro, Bolsonaro pode ter estimulado de forma irremediável a CPI do MEC, que, caso seja instaurada a pouco mais de três meses do pleito presidencial, deve significar uma "pá de cal" sobre o bolsonarismo.

Isso porque, com a CPI do MEC, a principal narrativa do governo na luta pela reeleição, que gira ao redor do "combate à corrupção", não somente desmorona, mas, em última análise, será usada de forma maciça contra o próprio bolsonarismo.

Bolsonaro foi estúpido o bastante para tentar naturalizar o tráfico de influência, crime que está tipificado no Código Penal, no art. 332, da seguinte maneira: "Art. 332 - Solicitar, exigir, cobrar ou obter, para si ou para outrem, vantagem ou promessa de vantagem, a pretexto de influir em ato praticado por funcionário público no exercício da função".

Na última quinta-feira, o presidente disse, efetivamente, que o que Milton Ribeiro fez "não foi corrupção da forma que você está acostumado a ver em governos anteriores. O cara fez uma obra superfaturada, comprou material e não recebeu, superfaturou, nada disso. Foi de história (sic) de fazer tráfico de influência. É comum". Conforme eu argumentei em artigo prévio publicado nesta coluna, Bolsonaro tenta normatizar a corrupção no Brasil.

Além disso, o próprio Milton Ribeiro assumiu para a sua filha que o presidente lhe informou sobre as ações da Polícia Federal e o delegado Bruno Calandrini apontou, em um grupo de delegados, a interferência de superiores na condução do inquérito que investiga o esquema de corrupção no MEC.

Ainda assim, evidentemente, a ala governista deverá trabalhar para esvaziar a CPI do MEC. Resta saber se o senador Rodrigo Pacheco, que preside o Senado Federal e a quem cabe tomar a decisão de instaurar ou não a comissão parlamentar neste momento, deseja sepultar a sua vida pública junto com o lamaçal de corrupção que enterrou de vez o bolsonarismo.

* Cesar Calejon é jornalista, com especialização em Relações Internacionais pela FGV e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela USP (EACH). É escritor, autor dos livros A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI (Kotter), Tempestade Perfeita: o bolsonarismo e a sindemia covid-19 no Brasil (Contracorrente) e Sobre Perdas e Danos: negacionismo, lawfare e neofascismo no Brasil (Kotter).