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Entendendo Bolsonaro

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com escândalo no MEC, redes bolsonaristas acusam 'golpe' da oposição

4.fev.2022 - Bolsonaro aperta a mão de Milton Ribeiro, então ministro da Educação, durante cerimônia no Palácio do Planalto - Clauber Cleber Caetano/PR
4.fev.2022 - Bolsonaro aperta a mão de Milton Ribeiro, então ministro da Educação, durante cerimônia no Palácio do Planalto Imagem: Clauber Cleber Caetano/PR
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Entendendo Bolsonaro

Esta é uma coluna coletiva que pretende contribuir, sob diversos olhares ? da comunicação à psicanálise, da ciência política à sociologia, do direito à economia ?, para explicar o fenômeno da nova política. O "Entendendo Bolsonaro" do título indica um referencial, mas não restringe o escopo analítico. Toda semana, pesquisadoras e pesquisadores serão convidados a trazer suas reflexões. O compromisso é com um conteúdo acadêmico traduzido para o público amplo, num tom sereno que favoreça o debate de ideias. Convidamos você a nos acompanhar e a interagir conosco.

Colunista do UOL

29/06/2022 11h21

* Thatiane Moreira

"Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é" tem sido um dos lemas levados adiante por diversos integrantes da autointitulada direita conservadora, como Olavo de Carvalho, Luciano Hang, membros do clã Bolsonaro e canais "bolsonaristas" no YouTube, para caracterizar as críticas (principalmente da esquerda) ao atual governo brasileiro.

A frase citada faria parte do suposto "decálogo de Lenin", uma lista atribuída ao líder soviético que incluiria orientações como "corrompa a juventude", "controle os veículos de comunicação" e "divida a população em grupos antagônicos". Segundo agências brasileiras e norte-americanas de fact-checking, o texto é uma farsa que circula em inglês, ao menos, desde a década de 1940.

O fortalecimento dos temores em torno do socialismo/comunismo ganhou relevância nas eleições de 2018, mas foi perdendo força de engajamento no decorrer do governo, cedendo lugar para temas da "vida real", como as crises sanitárias e econômicas que continuam a assolar o país. Por outro lado, o "acuse-os do que você faz" mantém-se como uma das bases principais do discurso de Jair Bolsonaro e do bolsonarismo, atuando para manter viva a ideia de um suposto golpe contra o chefe do executivo brasileiro.

Nesse sentido, o recente caso de prisão do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro é um bom exemplo de como esta ideia de golpe tem sido gestada nas redes bolsonaristas. Segundo os apoiadores de Bolsonaro, o juiz Renato Borelli, responsável pelo caso, teria sido parcial e cometido abuso de autoridade, com a finalidade de perseguir o presidente e alavancar a CPI do MEC.

As mensagens sobre o caso do ex-ministro alegam que a esquerda estaria desesperada, afinal o "datapovo" mostraria toda semana o imenso apoio devotado a Jair Bolsonaro. As duas únicas opções da esquerda seriam manipular a opinião pública contra o chefe do executivo ou fraudar as eleições (uma combinação de ambas seria também possível). Ampliar a rejeição a Bolsonaro seria uma estratégia da esquerda para, no mínimo, aumentar o número de votos nulos, já que os casos da Venezuela, Argentina, Estados Unidos, Chile, França e Colômbia teriam mostrado que foram as abstenções que permitiram a líderes progressistas chegarem ao poder.

Para fins de explicação, podemos separar as mensagens que circulam nos grupos bolsonaristas sobre o pleito eleitoral de 2022 em três grupos principais: I) mobilizar medos (do comunismo, do Brasil se tornar uma Venezuela, da corrupção, do fim da família, da perseguição religiosa, e, principalmente, do fim das liberdades); II) criar bodes expiatórios (a culpa é dos governadores, do "lockdown", do STF, do Senado, da Petrobras, da guerra, da esquerda progressista); III) fortalecer a ideia de um suposto golpe contra Jair Bolsonaro, que estaria sendo gestado nos seguintes níveis:

Pesquisa eleitoral

Está bem presente nos discursos a ideia de que as pesquisas eleitorais divulgadas pela imprensa seriam fraudulentas. A manipulação das pesquisas teria por intuito aumentar o número de votos nulos ou criar o que é chamado pelos bolsonaristas de "efeito de manada".

Conforme observei nos grupos digitais e canais de YouTube de apoiadores de Bolsonaro, há a ideia de que a pressão social seria a melhor ferramenta para manipular, coagir e "obrigar" as pessoas a fazerem o que de outro modo não fariam. Se os indivíduos, sobretudo os indecisos, forem convencidos que a maioria segue determinado padrão, parte deles se sentiria incomodado e excluído por não agir como o grupo. Então, para eliminar essa sensação de rejeição desconfortável e ser novamente aceito pela maioria, muitos desses indivíduos deixariam de lado a própria consciência e passariam a agir como o restante do grupo.

Dentro deste suposto golpe sendo gestado contra Bolsonaro, as pesquisas eleitorais manipuladas teriam o papel de mudar a decisão dos influenciáveis. Por isso, o verdadeiro termômetro das eleições seria o "datapovo", que mostraria a "verdade sobre o voto dos brasileiros".

Supostas fraudes no TSE

O STF e o TSE estariam juntos em uma suposta ação coordenada para eleger o ex-presidente Lula (PT), tanto que o STF teria "rasgado a constituição" para soltar Lula e continuaria rasgando-a na "perseguição" aos bolsonaristas. O ministro Luís Roberto Barroso e o TSE teriam agido para impedir o Congresso de implantar o voto impresso, com o intuito de permitir que a eleição fosse fraudada sem deixar provas.

Os argumentos utilizados para mostrar a suposta fraude eleitoral se apoiam na ideia de indícios, ressaltam que após a implantação das urnas eletrônicas teria havido um crescimento expressivo da bancada do PT, o que poderia ser um indicativo de que as urnas favoreceriam o Partido dos Trabalhadores. E, por isso, não haveria questionamentos do PT (nem da mídia tradicional) sobre o processo de votação.

Outro ponto ressaltado nas redes digitais diz respeito à vinculação do ministro Alexandre de Moraes a Geraldo Alckmin (PSB), por aquele ter sido secretário do ex-governador de São Paulo, deixando subentendido que Moraes poderia favorecer a candidatura de Lula. Há também menções às reuniões do ministro Luiz Edson Fachin com diplomatas de outros países, o que seria um indicador de que ele estaria "costurando" o reconhecimento internacional dos resultados divulgados pelo TSE, como uma forma de dar legitimidade à suposta fraude.

Nas redes digitais bolsonaristas circularam também várias denúncias de títulos eleitorais cancelados indevidamente, e a afirmação sem respaldo de que a maioria destes títulos seria de eleitores do atual governo brasileiro, fato entendido como mais um indício de fraude eleitoral. Vários políticos bolsonaristas fizeram postagens alertando aos eleitores sobre o cancelamento de títulos e instruindo as ações a serem realizadas.

Supostas fraudes na urna eletrônica

Minha pesquisa também coletou o discurso de que o "Foro de São Paulo", com as recentes vitórias da esquerda latino-americana, estaria recuperando territórios perdidos (Argentina, Chile) e ganhando outros novos (Colômbia) — o próximo seria o Brasil.

Isso, segue o discurso, permitiria a volta da esquerda progressista em certos países por uma combinação entre fraude eleitoral e guerra cultural, entendida como a doutrinação promovida pelo ensino e pela mídia. No caso brasileiro, a fraude eleitoral seria garantida por hipotéticos "pontos cegos" na urna, conhecidos e mantidos para esta finalidade, somados à impossibilidade dos votos serem auditados e à existência de uma sala secreta de contagem de votos (acusações sem respaldo nos fatos).

A ideia de fraude nas urnas segue o discurso de que "sem um processo limpo não haveria eleição", assim como o argumento de que "o único adversário de Bolsonaro nas eleições é a fraude", o que fortalece tanto o discurso daqueles que atribuem às Forças Armadas o papel de "guardiões da verdadeira democracia" quanto dos que entendem que a população armada é a única solução.

Os ataques de Bolsonaro à imprensa e ao STF após a manutenção da cassação do deputado estadual Fernando Francischini (União Brasil-PR) ampliaram os discursos sobre o suposto golpe da esquerda e a ideia de que só o povo ("patriotas") poderia vencer esta "guerra". Antes da fala do presidente brasileiro, as postagens sobre a necessidade de "agir enquanto ainda resta a liberdade" apareciam sobretudo na forma de diagnósticos, isto é, mostrando o que estava errado e precisava ser mudado.

Nas semanas seguintes às falas do chefe do executivo, as mensagens que procuravam mobilizar para a ação ganharam preponderância, a urgência do "precisamos ir para a rua" ganhou força, engajando para as ações de rua planejadas para 31 de julho e para 7 de Setembro. É interessante perceber que há nos grupos bolsonaristas uma disputa sobre o sentido deste "ir para as ruas", um embate sobre se as ações precisam ser "democráticas", "pacíficas", ou se por tratar-se de uma "guerra" — conforme a fala do próprio presidente — seria preciso estar preparado para tudo.

O que se percebe é um risco crescente nos discursos do presidente Bolsonaro e na mobilização de seus apoiadores. Estaria Bolsonaro querendo tensionar a possibilidade de sua própria candidatura a fim de ser impugnado, tornando-se um mártir e podendo colocar um outro nome em seu lugar? Ou ele almeja apenas causar instabilidade, amplificando a estratégia de 2018?

Ainda não temos uma resposta definitiva para estas perguntas, mas o fato é que, ao propagar o discurso de um suposto golpe da esquerda, fortalecendo o entendimento de que para salvar a "verdadeira democracia" seria preciso ser antidemocrático, Bolsonaro faz jus à frase proferida por seus apoiadores, "acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é".

* Thatiane Moreira é mestranda em Ciência Política pela Unicamp