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Diogo Schelp


No Datena e no pronunciamento, argumento sobre cura e desemprego se repete

Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

09/04/2020 00h30

A mensagem é a mesma, só muda a desenvoltura do mensageiro. Poucas horas antes de seu pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV, o presidente Jair Bolsonaro concedeu uma entrevista por telefone ao apresentador Luiz Datena, no programa Brasil Urgente, na Band. Se no discurso oficial o presidente aparece rígido, lendo com dificuldade no teleprompter um texto que, na superfície, parece moderado, na conversa com Datena ele se solta.

Ali, Bolsonaro fica à vontade para ser ele mesmo, pois respeita o apresentador, mesmo quando este o coloca contra a parede, como fez após a confraternização com manifestantes no dia 15 de março, em Brasília, contra as recomendações do Ministério da Saúde.

Na entrevista a Datena, o desprezo de Bolsonaro pela gravidade da doença causada pelo novo coronavírus — e por suas maiores vítimas, os idosos — fica mais evidente. Ali, Bolsonaro repetiu a analogia entre pandemia e chuva, dizendo que todos vão se molhar, mas que, infelizmente, alguns podem morrer afogados. Fazer o quê.

Ali, para uma audiência que ele confia ser amigável, Bolsonaro arrisca até piada, dizendo que a cor verde da cadeira presidencial parece kryptonita, o mineral fictício que enfraquece o Super-homem. Bolsonaro se abre tanto com Datena que até admite estar mais fraco do que nunca no cargo.

Mas, aparências à parte, na essência a mensagem de Bolsonaro é a mesma na entrevista a Datena e no pronunciamento. Essa mensagem ampara-se em dois pilares: o bônus da cura e o ônus do desemprego.

O bônus da cura pertence a ele, Bolsonaro. Trata-se da aposta na hidroxicloroquina e na cloroquina para tratar a covid-19, seja para pacientes graves, seja em estágios anteriores da doença. Como os médicos e cientistas sérios não se cansam de repetir, não há evidências da eficácia do medicamento. Os estudos estão em andamento e ainda podem demorar entre um e dois meses para levarem a um resultado preliminar confiável. Esperamos que a conclusão seja positiva. Até lá, porém, o que fazer?

O presidente deixa claro, tanto no pronunciamento quanto na entrevista a Datena, que se depender dele colocará todos os esforços na hidroxicloroquina como solução para a pandemia. Como evidência de que está no caminho certo, pisou e repisou o fato de o cardiologista Roberto Kalil, médico das estrelas, ter usado o medicamento enquanto convalescia da doença.

Se der certo e o medicamento se provar eficiente, Bolsonaro terá o bônus da cura. Ele apontou a verdade, como disse ao final do pronunciamento, citando a Bíblia, e a liberdade nos libertou.

Enquanto isso, porém, governadores e prefeitos promovem a única coisa que comprovadamente funciona para conter a transmissão do vírus, que são as medidas preventivas — das quais a mais draconiana é o distanciamento social, com fechamento de serviços e comércios não essenciais.

Se o cenário mais catastrófico da pandemia for contido no Brasil, terá sido graças à atuação dos governadores e dos prefeitos. Mas será deles o ônus do desemprego causado pelas restrições às atividades econômicas. Bolsonaro já disse que não tem nada a ver com isso.

No pronunciamento, o presidente criticou os governadores pelo que considerou medidas restritivas exageradas. Na entrevista ao Datena, disse que, por ele, assinaria um decreto ou faria um projeto de lei para obrigar a reabertura do comércio. Só que, segundo ele, isso não daria em nada porque a Justiça vai derrubar ou o Congresso vai vetar.

Ou seja, Bolsonaro aposta todas as suas fichas na cura e joga o peso da prevenção nas costas dos governadores, prefeitos, juízes e parlamentares.

Se a hidroxicloroquina não funcionar, ele lavará as mãos e dirá que ao menos tentou. Quanto ao desemprego, ele já se eximiu de qualquer responsabilidade. A culpa não é dele e tudo o que ele faz é apagar o incêndio que os outros provocaram, distribuindo dinheiro para informais e pequenos empresários.

A estratégia de Bolsonaro para enfrentar a pandemia está clara: não arca com nenhum ônus e, se houver bônus, é dele.

E as vidas perdidas, como ficam?

É aí que entra a única diferença de retórica no pronunciamento e na entrevista ao Datena: na primeira, Bolsonaro começa se solidarizando com as pessoas que perderam familiares para o coronavírus. Na segunda, dá de ombros. Jovens, segundo ele, não precisam se preocupar. Mas, em uma guerra, algumas pessoas acabam morrendo.

Fazer o quê.

Diogo Schelp