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Diogo Schelp


Líderes mundiais ganharam popularidade na pandemia. Bolsonaro, não

11.abr.2020 - Jair Bolsonaro (sem partido) abraça população em Águas Lindas de Goiás (GO) - Marcos Corrêa/Divulgação Presidência da República
11.abr.2020 - Jair Bolsonaro (sem partido) abraça população em Águas Lindas de Goiás (GO) Imagem: Marcos Corrêa/Divulgação Presidência da República
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

15/04/2020 11h48

A pandemia do novo coronavírus está se provando um poderoso anabolizante para a popularidade de governantes ao redor do mundo. Em tempos de crise, aqueles que abraçam a oportunidade de liderar suas nações contra um inimigo invisível e sorrateiro veem suas taxas de aprovação aumentar — mesmo diante de números crescentes de infectados e mortos.

A explicação para isso é que a percepção de um inimigo comum permite a união das pessoas em torno de uma causa única. Até opositores precisam calar-se em suas críticas aos governantes para demonstrar comprometimento com as soluções. Nesses momentos, todas as atenções se concentram na autoridade máxima do país.

Até mesmo chefes de governo que chegaram tarde na resposta mais firme à pandemia começam a desfrutar de aumento na popularidade. É o caso do presidente americano Donald Trump e do primeiro-ministro britânico Boris Johnson, que no início trataram o temor com a covid-19 como um exagero.

Trump segue soltando bravatas, procurando culpados para a tragédia na saúde pública que o país está enfrentando agora (ora aponta para a China, ora para a Organização Mundial de Saúde), mas o fato é que seu governo se rendeu às medidas de distanciamento social e ao socorro econômico. Sua popularidade cresceu 4 pontos percentuais desde janeiro e atingiu a máxima de seu mandato.

Boris Johnson sentiu na pele os efeitos da doença, pois testou positivo para covid-19 e chegou a ser internado. Mas, justiça seja feita, seu chamado à liderança contra a pandemia chegou antes de se infectar — a Inglaterra está submetida a medidas rígidas de restrições à circulação de pessoas. Graças a isso, sua popularidade está cerca de 10 pontos percentuais mais alta do que em janeiro.

Os líderes que não tardaram em assumir o comando da adoção de soluções duras, mas necessárias, para conter a pandemia também apresentam níveis de aprovação históricos. As popularidades do presidente francês Emmanuel Macrón, da chanceler alemã Angela Merkel e do premiê canadense Justin Trudeau aumentaram cerca de 10 pontos percentuais cada um, desde janeiro.

O crescimento na aprovação popular do primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte e do premiê australiano Scott Morrison é ainda mais espetacular. A popularidade do primeiro aumentou quase 30 pontos percentuais, mesmo com o caos na saúde pública verificado em seu país. O australiano também teve um incremento de cerca de 25 pontos percentuais em seu nível de aprovação.

Exceções ficam por conta de líderes que continuam dando de ombros para a epidemia, como o presidente mexicano Manuel López Obrador (queda de 10 pontos percentuais na popularidade) e o brasileiro Jair Bolsonaro (redução de 4 pontos percentuais, segundo a pesquisa XP/Ipespe), ou de governantes cuja disposição para adotar medidas para minimizar o impacto da pandemia na economia e na renda da população foi considerada muito tímida, como o premiê japonês Shinzo Abe (queda de 5 pontos percentuais).

Políticas públicas, é claro, não devem ser guiadas por índices de aprovação. Mas a popularidade dos governantes nessa crise diz muito sobre o tipo de liderança que eles representam.

Diogo Schelp