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Diogo Schelp


Argumento sobre 'pico da curva' de Osmar Terra foi contestado na Inglaterra

O novo Hospital NHS Nightingale foi aberto em Londres, na Inglaterra, para atender vítimas do coronavírus - Getty Images
O novo Hospital NHS Nightingale foi aberto em Londres, na Inglaterra, para atender vítimas do coronavírus Imagem: Getty Images
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

19/04/2020 15h15

O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), ex-ministro da Cidadania, vem defendendo, por meio de postagens no Twitter, a ideia de que a pior fase do contágio pelo novo coronavírus já passou e que as medidas de distanciamento social de nada adiantaram. Como argumento, usou dados diários de novos casos em países da Europa e em estados brasileiros. Sua interpretação das estatísticas é criticada por especialistas em infectologia e epidemiologia brasileiros. Neste domingo (19), em entrevista coletiva realizada em Londres, Jenny Harries, vice-chefe para assuntos médicos do governo britânico, explicou porque argumentos como os utilizados por Terra não se sustentam.

Ela foi perguntada sobre a validade de uma afirmação feita pelo pesquisador Jeremy Farrar, integrante de um grupo de aconselhamento científico para emergências do governo, de que o Reino Unido já havia superado o pico da "primeira onda" do vírus.

Jenny Harries respondeu que os dados são revisados retrospectivamente e que, portanto, a redução momentânea do número de casos divulgados diariamente pode não refletir a realidade. "Não acho apropriado dizer, pelo que sabemos dos dados hospitalares, que entramos no achatamento da curva", disse a Dra. Harries. O chamado "achatamento da curva" é o propósito das medidas do isolamento social — ou seja, evitar um número muito alto de pessoas contaminadas em um curto período de tempo e, vez disso, distribuí-los ao longo das semanas, para não sobrecarregar o sistema de saúde.

Além disso, segundo Jenny Harries, ainda que o nível de contaminação tenha diminuído, se as medidas de distanciamento social não forem mantidas certamente haverá um novo pico e a situação não será superada. "Realmente acredito que estamos indo na direção certa."

O ex-ministro Osmar Terra, que, apesar de médico, não é especialista em epidemiologia, insiste na hipótese de que o isolamento social é inútil. Neste domingo, por exemplo, ele mostrou um gráfico com dados do Rio Grande do Sul sugerindo que o pico do contágio no estado se deu no começo de abril. Assim como ocorre na Inglaterra, conforme a explicação da Dra. Harries, porém, a conclusão de que o pico da doença foi superado é prematura — basta ver que a capacidade de internação em UTIs, tanto no Reino Unido quanto nos estados brasileiros, está chegando perto do seu limite (quando já não chegou, como é o caso do Amazonas).

A desaceleração consistente do número de novos casos, quando puder ser comprovada com testes em massa, apenas provará que o isolamento social funcionou.

Diogo Schelp