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Diogo Schelp


Bolsonaro aposta suas fichas na crise errada

Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

02/05/2020 17h37

Em sua mais recente demonstração de descaso pelas mortes causadas pela covid-19, o presidente Jair Bolsonaro — que até este sábado (2) não apresentou o resultado de seu exame para comprovar se contraiu o novo coronavírus - provocou nova cena de aglomeração, dessa vez em um posto de gasolina em Goiás.

Bolsonaro, com a ajuda dos ministros do núcleo ideológico, está dobrando suas fichas na aposta de que a crise econômica causada pela pandemia vai favorecê-lo, pois a culpa recairá sobre os governadores e prefeitos que se viram obrigados a adotar medidas draconianas na tentativa de evitar o colapso do sistema de saúde.

"Estão destruindo o emprego no Brasil de forma irresponsável, até porque a curva (do vírus) não tem achatado", disse Bolsonaro, enquanto distribuía perdigotos presidenciais entre seus apoiadores, inclusive idosos.

Enquanto isso, no Twitter, Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, escreveu que o Brasil chegou a maio "sem 1 milhão de mortos". "Como não tiveram o caos para explorar contra Bolsonaro tentam criar uma crise usando o ex-juiz", escreveu ela, em referência ao ex-ministro Sergio Moro e sua demissão litigiosa.

Agora que as estatísticas comprovaram que a covid-19 não é uma gripezinha — tendo matado bem mais no Brasil do que os profetas da negação bolsonarista previam (incluindo aí o ex-ministro Osmar Terra e o próprio Bolsonaro) e bem menos do que se governadores e prefeitos não tivessem adotado medidas de distanciamento social — prepare-se para ouvir pelos próximos meses dois argumentos falaciosos.

O primeiro é o de que, se os estados e municípios tivessem seguido a pregação de Bolsonaro contra as medidas de isolamento social, não haveria fechamento de empresas, desemprego e a recessão que se avizinha.

A crise econômica é global, com uma previsão de retração do PIB de 3% em 2020 segundo o FMI — e o Brasil não ficaria imune. Além disso, se as autoridades deixassem o vírus correr solto, contagiando uma grande número de pessoas ao mesmo tempo, mas mantendo todas as atividades econômicas, ainda assim não conseguiriam evitar a recessão. Isso porquê, em um cenário de contágio em massa e grande número de mortos, o consumo também cai. Há também o custo social e econômico de cada vida perdida.

Um estudo interessante produzido pelos pesquisadores brasileiros Alexandre Simas, Samy Dana, Bruno Filardi, Rodrigo Rodriguez e José Gallucci Neto compara as curvas da recessão em cenários com ou sem políticas de contenção de atividades econômicas e com ou sem pacotes de auxílio governamental. A ausência de medidas de isolamento social diminui mas não elimina a recessão — e provoca muitas mortes. Já a adoção de políticas de contenção sem pacotes governamentais para proteger renda e empresas reduz o número de mortes, mas provoca uma recessão profunda. O cenário que produz curvas "achatadas" tanto na saúde pública quanto na economia é o que combina medidas de contenção com políticas econômicas adequadas.

É por esse motivo que o governo federal não escapará de ser responsabilizado pela recessão: as políticas públicas para conter os efeitos econômicos estão em suas mãos e de nada adiantará jogar a culpa nos ombros dos governadores.

O segundo argumento falacioso é o de que o número de mortos pela covid-19 é muito menor do que o previsto. É preciso lembrar que quem subestimou a mortalidade do novo coronavírus foram os conselheiros "científicos" do presidente.

Sim, houve uma projeção de 1 milhão de mortos no Brasil feita por pesquisadores britânicos, mas a maioria dos estudos previa mortes às dezenas ou centenas de milhares se nenhuma medida fosse adotada.

No modelo elaborado por Alexandre Simas e Samy Dana, da FGV-SP, que leva em conta particularidades demográficas e de estrutura hospitalar no Brasil, o número total de mortes na pandemia pode ficar entre 23.000 e 93.000. Em um cenário mediano, o total de mortes ficará na faixa de 38.300. Isso considerando-se a manutenção das medidas de isolamento social em vigor.

Se nada tivesse sido feito, portanto, a pandemia seria, sim, ainda mais catastrófica. As pesquisas de opinião indicam que a maioria dos brasileiros tem consciência disso.

De nada adianta o presidente e seu entorno repetirem à exaustão que estavam certos em sua postura diante da pandemia e que a conta da crise econômica deve ser cobrada dos governadores.

Jair Bolsonaro é que vai receber a fatura. Em dobro.

Diogo Schelp