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Diogo Schelp

Bolsonaro quer enfiar cloroquina goela abaixo dos brasileiros

Presidente Jair Bolsonaro                              - EVARISTO SA/AFP
Presidente Jair Bolsonaro Imagem: EVARISTO SA/AFP

Colunista do UOL

16/05/2020 13h12

O fato mais preocupante a respeito da saída do oncologista Nelson Teich do cargo de ministro da Saúde é o motivo: a sua discordância com os planos do presidente Jair Bolsonaro de mudar o protocolo para o uso de hidroxicloroquina em pacientes com covid-19. "Votaram em mim para eu decidir. E essa decisão da cloroquina passa por mim", disse Bolsonaro na quinta-feira (14), um dia antes de Teich pedir demissão.

A afirmação de Bolsonaro seria um acinte para qualquer ministro com formação médica e com algum apego a evidências científicas. Alguém moraria no vigésimo andar de um edifício projetado pelo presidente, que não é engenheiro civil nem arquiteto? Da mesma forma, é uma temeridade que uma decisão técnica e complexa como o protocolo de uso de um remédio, que pode colocar em risco a vida das pessoas, seja feita com base nas crenças e nos caprichos do presidente.

"Os melhores estudos internacionais disponíveis até agora não mostram benefício da cloroquina ou da hidroxicloroquina no tratamento da doença, mas, sim, aumento de risco de morte, provavelmente por arritmia", diz o infectologista e epidemiologista Carlos Magno Fortaleza, do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu (SP).

Um grande estudo clínico com hidroxicloroquina envolvendo diversos hospitais brasileiros ainda está a uma ou duas semanas de obter um resultado preliminar. Teich, antes de pedir exoneração, ligou para alguns dos centros que participam da pesquisa e pediu informações sobre a recomendação de se ministrar a cloroquina ou hidroxicloroquina nos estágios iniciais da doença, como quer Bolsonaro. O que ouviu não foi nada animador, segundo informou a repórter Bela Megale, de O Globo.

Apesar do risco de se ampliar a recomendação de uso de medicamento cuja eficácia não foi comprovada e que, ao contrário, possivelmente causa mais malefícios do que benefícios, Bolsonaro insiste em mudar o protocolo. Ele quer enfiar goela abaixo dos brasileiros as 3 milhões de cápsulas de hidroxicloroquina que o Ministério da Saúde comprou e começou a distribuir.

O novo protocolo não obriga os médicos a ministrar a hidroxicloroquina a seus pacientes no estágio inicial da covid-19, mas muitos se sentirão compelidos a fazê-lo por temor de que, caso o quadro clínico piore por qualquer outro motivo, sejam acusados de omissão, explica Fortaleza. Em outras palavras, é uma irresponsabilidade criar esse tipo de constrangimento para os profissionais que estão na linha de frente do combate à covid-19 enquanto não existir comprovação científica de que o remédio é eficaz e não provoca mais danos do que benefícios.

Bolsonaro, que boicota todos os esforços estaduais e municipais para prevenção de contágio pelo novo coronavírus, insiste na hidroxicloroquina como bala de prata contra a doença. Seus ministros ideológicos reforçam seu discurso, a ponto de Damares Alves, da pasta da Família, Mulher e Direitos Humanos, ter chamado a cloroquina de "milagrosa".

Nessas horas, o governo fala em milagre. Quando o presidente é questionado pelos números crescentes de brasileiros mortos por covid-19, no entanto, ele dá de ombros e diz "e daí, lamento?" e que tem Messias no nome, mas não faz milagres. Quando as mortes começarem a cair, no entanto, ele vai dizer que foi graças à hidroxicloroquina e não às medidas de distanciamento social adotadas à sua revelia.

O presidente não está preocupado com a vida dos brasileiros. Ele só quer vencer a guerra da narrativa.