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Diogo Schelp


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Iniciativa privada foi mal aproveitada na pandemia, diz Claudio Lottenberg

Claudio Lottenberg, presidente do conselho do Hospital Albert Einstein, em São Paulo - Karime Xavier/Folhapress
Claudio Lottenberg, presidente do conselho do Hospital Albert Einstein, em São Paulo Imagem: Karime Xavier/Folhapress
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

11/08/2020 16h21

No combate ao novo coronavírus, "a iniciativa privada poderia ter sido melhor trabalhada", diz Claudio Lottenberg, presidente do conselho do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e do Instituto Coalizão Saúde, formado por empresários do setor de saúde.

Ex-secretário municipal de Saúde de São Paulo na gestão José Serra (PSDB) e filiado ao DEM em abril deste ano, Lottenberg chegou a ser cotado para substituir Luiz Henrique Mandetta no Ministério da Saúde do governo Bolsonaro.

Lottenberg respondeu às seguintes perguntas da coluna sobre o atual estágio da pandemia de covid-19 no Brasil:

Com a pandemia do novo coronavírus, o tratamento de outras enfermidades está sendo negligenciado? Quais são elas e como mensurar o impacto dessa negligência?

Em função do receio de serem contaminados, os pacientes estão deixando de procurar os serviços médicos, acarretando prejuízo nas doenças crônico-degenerativas e oncológicas. Na cidade de Nova York (EUA), o número de infartos do miocárdio que levam a morte nas residências aumentou em até oito vezes. Infelizmente, não temos dados consistentes do Brasil, mas uma coisa eu posso dizer: os pacientes da periferia, portanto com renda per capita menor, são os mais graves justamente porque não acompanham os quadros de comorbidade. Não cuidar de doenças crônico-degenerativas aumenta a taxa de mortalidade.

Esse impacto ainda não poderá ser medido, mas no correr dos próximos meses estaremos observando um aumento na taxa de mortalidade em doenças que são decorrentes de hipertensão, insuficiência renal crônica, de doença pulmonar obstrutiva crônica e também de câncer.

Por que isso ocorre? O que poderia ter sido feito e o que ainda pode ser feito para minimizar esse problema?

Acho fundamental que divulguemos e incrementemos o contato com esses pacientes, explicando o prejuízo do não acompanhamento dessas doenças e a consequência que isso trará para suas próprias vidas. Isso pode ser feito no contato direto, através de campanhas ou por meio da própria imprensa.

De que forma o medo do novo coronavírus está impactando no calendário de vacinação?

Todo conceito da vacinação, e vou além da prevenção, tem sido deixado de lado a despeito de um discurso que fala o contrário. A saúde é tratada como um direito do cidadão e um dever do Estado e isso se reproduz como uma terceirização de responsabilidades. Enquanto não trabalharmos pelo engajamento do paciente para que ele mesmo se preocupe em entender e decidir sobre a sua saúde, esses fatos continuarão acontecendo.

A vacinação vem perdendo sua importância e, num contexto em que as pessoas estão com medo de contrair uma infecção e não se cuidam de um todo, não há estimulo e isso é tratado como algo de segunda importância.

A mudança para isso só acontecerá no momento em que houver uma consciência de que cabe a cada pessoa administrar e cuidar de sua saúde.

A rotina dos brasileiros vai voltar ao normal quando (e se) as vacinas contra covid-19 que estão sendo testadas se provarem eficazes? Ou teremos que conviver com restrições e mudanças de hábito por muito tempo mesmo com a vacina? Por quê?

É difícil prever. De fato, em situações semelhantes e, portanto, partindo de experiências anteriores, o esperado é que a vacina permitisse um retorno ao que era antes. Entretanto, pela agressividade do atual caso, por aquilo que as pessoas estão observando e por aquilo que estão vivendo, acredito que um novo padrão de relacionamento deverá acontecer, como em uma nova cultura comportamental.

Deixando de lado o jogo de empurrar as responsabilidades sobre as mortes por covid-19 para os adversários políticos, do ponto de vista estritamente médico e de saúde, alguma coisa poderia ter sido feita para salvar mais vidas? O quê?

A iniciativa privada poderia ter sido melhor trabalhada, no sentido de organizar os processos de testagem e com isso criar protocolos de afastamento e ou volta ao trabalho.

Existem dados de natureza de georreferenciamento e inclusive com a utilização de telefonia celular que seriam úteis se utilizados de maneira conjunta. São Paulo até tentou fazer isso. Infelizmente, dentro da burocracia de uma organização do estado fica difícil dar velocidade e sequência a uma série de iniciativas lúcidas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Diogo Schelp