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Diogo Schelp


Diogo Schelp

Agricultores venderam arroz abaixo do preço de custo por anos

Arroz em alta -
Arroz em alta
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

09/09/2020 15h53

Os produtores rurais não são os responsáveis pela alta no preço do arroz, diz Alexandre Velho, presidente da Federarroz (Federação das Associações dos Arrozeiros), refutando a alegação de que um dos motivos para o produto ter ficado mais caro nos supermercados seria a estocagem pelos agricultores para fazer especulação. Em entrevista à coluna, Velho afirmou também que, se há especulação, ela está sendo feita por grandes indústrias de alimentos. "As maiores possuem estoque garantido até a próxima safra", diz Velho.

O representante da federação do Rio Grande do Sul, estado que abastece 70% do mercado brasileiro de arroz, recorda que os rizicultores brasileiros amargaram prejuízo nos últimos 5 anos, frequentemente vendendo o produto abaixo do valor de custo. "Os custos de produção do arroz ficam em torno de 45 a 50 reais a saca (de 50 Kg) e, em muitos momentos, o preço pago ao produtor foi de 30 a 35 reais", diz Velho.

Como consequência da rentabilidade em queda e de problemas climáticos, o endividamento dos rizicultores cresceu e o interesse pelo plantio caiu. "A área plantada reduziu-se de 1,17 milhão para 930 mil hectares em cinco anos no estado, e foi substituída por soja e pecuária", diz Velho.

Atualmente, a saca de arroz está valendo perto de 100 reais, mas poucos produtores têm grãos armazenados para usufruir dessa valorização. A explicação está no modelo de financiamento a que recorre a maioria dos rizicultores. Segundo Velho, 30% têm acesso a crédito agrícola oficial. Os outros 70% são financiados pela indústria e precisam pagar os empréstimos na época da safra (de janeiro a maio, no Rio Grande do Sul), ou seja, quando o valor do produto está mais baixo. Por isso, poucos têm estoque no segundo semestre.

Velho diz que conversou com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, nesta terça-feira (8), para avaliar os impactos da proposta de zerar a tarifa de importação do arroz. Atualmente, a alíquota sobre o arroz vindo de países de fora do Mercosul é de 10% (com casca) e 12% (branco). "Não vejo muito impacto nessa medida, pois a tarifa permaneceria zerada só até dezembro, antes da próxima safra brasileira", diz Velho.

Até lá, a eliminação da tarifa pode ajudar no abastecimento interno, mas dificilmente reduzirá significativamente o preço do produto nas gôndolas, pois o valor internacional está alto e há poucas alternativas de quem comprar. "O arroz dos Estados Unidos seria o principal candidato, seguido da Índia", diz Velho.

O governo deve anunciar a eliminação da alíquota de importação de itens da cesta básica ainda esta semana.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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