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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Biden pode explorar rivalidade de Bolsonaro com China, diz professor da USP

O presidente americano Joe Biden - Getty Images
O presidente americano Joe Biden Imagem: Getty Images
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

11/02/2021 14h43

Até ser derrotado nas urnas pelo democrata Joe Biden, o ex-presidente americano Donald Trump liderava uma espécie de "internacional antiglobalista", ou seja, um movimento com vínculos em vários países contra a atuação das instituições internacionais e o multilateralismo.

Sem Trump na liderança da maior potência mundial, os antiglobalistas ficaram órfãos — em especial o governo brasileiro, que tem nessa teoria conspiratória uma peça central de sua identidade em política externa.

Agora isolado internacionalmente, o governo de Jair Bolsonaro se vê não apenas sem a chancela de Washington em seu posicionamento externo, como enfrenta uma situação delicada no relacionamento com a China, que sempre funcionou como um antagonista preferencial na narrativa do bolsonarismo.

O constrangimento se deve ao fato de que o Brasil precisa do IFA (Insumo Farmacêutico Ativo), a matéria-prima para a produção de vacinas contra a covid-19, fornecido pela China. Em janeiro, carregamentos desse insumo ficaram parados na aduana chinesa esperando liberação para o Brasil.

Enquanto essa dependência existir, o Brasil adotará um recuo tático nas tensões com a China, avalia Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP) e professor visitante da Universidade Yale (2019-2020), nos Estados Unidos. Mas os ataques voltarão tão a logo a situação estiver resolvida.

A seguir, a entrevista com Guimarães:

Nas relações internacionais, há pontos em comum entre o Brasil e a China que dão chance para uma aproximação entre os dois países?

O relacionamento com a China é marcado por uma constante tensão entre três identidades da política externa bolsonarista: a identidade antiglobalista, a identidade nacionalista e a identidade anti-inimigo (normalmente representado pela China e por funcionários de instituições multilaterais).

Do ponto de vista identitário, de semelhança entre um governo e outro, que em determinado momento até facilitou o diálogo quando Bolsonaro visitou a China, em 2019, existe a questão do nacionalismo, a defesa das fronteiras e da soberania.

Isso para a China é muito forte, haja vista as questões do Tibete, da fronteira com a Índia, do movimento de independência de Taiwan.

Já o Brasil tem um governo dominado por militares, que possuem uma obsessão com uma possível tomada militar da Amazônia, inserida no contexto dessa outra teoria de conspiração internacional difusa de que o controle do nosso território está ameaçado.

Apesar de ser parecida com o governo Bolsonaro no aspecto do nacionalismo territorial, a China é o inimigo preferencial do Brasil na narrativa da atual política externa brasileira. Segundo essa narrativa, o Partido Comunista Chinês domina as instituições internacionais e usa o marxismo cultural, que seria a base cultural para que o marxismo seja disseminado, para tentar fragilizar o território dos demais, impondo o direito internacional aos povos.

Depois da crise dos insumos para a vacina contra covid-19, essas tensões entre o governo Bolsonaro e a China vão diminuir?

Existem dois fatores que influem nisso. O primeiro é a estratégia planejada ou intuitiva do governo em relação à China. O segundo são os constrangimentos internacionais que saem do planejado. Se, ao tentar implementar essa estratégia, o governo bate em uma parede, que é uma estratégia contrária de outro país, ele precisa se adaptar.

No caso da vacina, o constrangimento internacional forçou o governo a um freio de arrumação. Isso foi potencializado pelo fato de a vacina ter chegado ao Brasil por meio de um adversário político de Bolsonaro. No tema mais candente da atualidade, que é a luta contra a covid-19, a China entra no Brasil pelas mãos do governador de São Paulo, João Doria.

Se, por alguma razão, a vacina que o governo federal tivesse escolhido desde o princípio fosse uma vacina chinesa, teríamos uma situação bastante diferente da atual.

O governo errou sistematicamente nessa questão, por não ter levado a sério a questão da vacina. O governo federal tinha grandes chances de controlar todo o processo da vacina.

A imunização era algo inevitável, mas o governo Bolsonaro perdeu o controle da disputa e, no fim, não teve outro jeito se não se adaptar.

E essa adaptação é uma melhora no relacionamento com a China. O governo federal inclusive agiu para tomar o lugar do governo de São Paulo na negociação com a China para liberar os insumos para a fabricação da vacina.

Quanto tempo essa redução nas tensões vai durar?

A gente vai ver agora uma adaptação, um passo atrás com a China, para resolver o problema que é dado pelo constrangimento internacional de precisar dos insumos para a vacina.

Nesse episódio, a China tem os meios, tem o poder. Bolsonaro e seu governo não têm, então ele precisa se adaptar, mas faz isso obviamente a contragosto.

Na hora que isso passar, quando o problema da vacina for estabilizado ou quando o governo federal tiver acesso a outras vacinas e o peso dos chineses no processo for menor, podemos ter certeza que o governo Bolsonaro vai voltar a atacar a China.

Afinal, a China é a personificação total do inimigo da extrema direita no mundo hoje. E o Brasil é o último biscoito do pacote do conservadorismo com relevância no mundo.

A Hungria, a Polônia ou as Filipinas não têm essa relevância. A Índia poderia exercer esse papel, mas não o faz porque sua política externa não reflete a postura doméstica de extrema-direita nacionalista de seu governo.

Como fica a política externa bolsonarista com o fim do governo Donald Trump, nos Estados Unidos?

O governo brasileiro vai ter que se adaptar a esse cenário internacional que já é muito mais restritivo a ele. Essa adaptação vai depender muito da posição do governo Biden em relação ao governo brasileiro.

Mesmo sem um governo Trump, a fonte intelectual e a legitimidade da extrema-direita que dão amparo a Bolsonaro estão nos Estados Unidos.

Apoiar ou não apoiar Trump dá voto no Brasil, por incrível que pareça, devido à enorme influência intelectual e cultural que os Estados Unidos têm por aqui.

A fauna bolsonarista no Twitter é fortemente anti-Biden. Para os cinco principais influenciadores bolsonaristas, Biden é pedófilo, é globalista, ele é o sistema, ele é quase a encarnação do demônio. É preciso observar a postura deles em relação a Biden daqui para frente, pois a narrativa antiglobalista do governo Bolsonaro dá voto. Ela é fundamental na articulação eleitoral brasileira.

Por outro lado, o governo brasileiro está passando por um momento muito difícil de isolamento internacional.

Bolsonaro precisa manter um relacionamento funcional com os Estados Unidos, não pode antagonizar fortemente com Biden em várias áreas e, ao mesmo tempo, não pode se aproximar muito do presidente democrata porque isso vai melindrar a associação umbilical que esses bolsonaristas têm com o Partido Republicano de Trump, com essa vontade de ser republicano de extrema-direita que eles têm.

Esse é o equilíbrio que o governo Bolsonaro terá que encontrar daqui para frente.

De que maneira esse relacionamento funcional com os Estados Unidos pode ser mantido?

Estamos falando do Brasil, não de um país com poucos meios materiais ou econômicos. O governo brasileiro tem à sua disposição a rivalidade entre China e Estados Unidos para tentar se aproximar de Biden.

Bolsonaro e Biden vão, em algum momento, fazer uma adaptação, um rearranjo para manter algum tipo de equilíbrio de forças. O governo Bolsonaro não fica totalmente isolado em relação aos Estados Unidos porque a influência da China na América Latina e no Brasil é forte e o governo americano tem que conter isso. O governo Bolsonaro é um forte candidato a ser um aliado nessa contenção, pela própria visão negativa que tem da China.

Outro ponto central na agenda de Biden é a questão ambiental. O governo Bolsonaro pode mudar sua política ambiental e, com isso, eles podem achar uma plataforma de comunicação e relacionamento. Mas isso ainda é algo a ser desenvolvido.

A questão ambiental faz parte das teorias conspiratórias que embasam a política externa bolsonarista. Seus formuladores acreditam que o Protocolo de Kioto e o Acordo de Paris, sobre mudanças climáticas, fazem parte da narrativa globalista de dominação do planeta.

Para Bolsonaro ter um relacionamento mínimo com Biden, talvez ele tenha que sacrificar essa parte da sua agenda antiglobalista.

Mas Bolsonaro não pode mudar toda a sua agenda conservadora em política externa, se não ele desmonta sua base de apoio. Os formuladores de sua política externa terão vários temas na sua frente e precisarão adaptar uns dois ou três, mas manter uns oito ou nove na mesma toada.

O que ainda mantém Ernesto Araújo no cargo de ministro das Relações Exteriores?

Ernesto Araújo é uma peça importante nesse jogo. Se Bolsonaro tirar Araújo ou colocar outra pessoa com o mesmo perfil, pouca coisa muda.

Porque ao fim e ao cabo, o ministro das Relações Exteriores de fato é Eduardo Bolsonaro (deputado federal pelo PSL de São Paulo e filho do presidente). Quem está no Itamaraty é o despachante de luxo, mas quem desenha a política externa é Eduardo Bolsonaro.

O dilema continuará sendo qual parte da agenda internacional o governo estará disposto a sacrificar para manter um relacionamento com os Estados Unidos que evite um isolamento ainda maior do Brasil.

Bolsonaro avança mais do que recua. Ele faz recuos táticos dentro de uma estratégia de longo prazo.

Foi o que se viu nessa nova postura diante da China, para resolver a questão dos insumos para as vacinas: tratou-se de um recuo tático, não de uma mudança estratégica. Por isso a permanência de Ernesto Araújo é possível.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL