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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Lula elegível aumenta chance de nova polarização entre Bolsonaro e PT

Lula desimpedido: chance de polarização de Bolsonaro com o PT em 2022 aumenta - Ricardo Stuckert/Instituto Lula/Wilson Dias/Agência Brasil
Lula desimpedido: chance de polarização de Bolsonaro com o PT em 2022 aumenta Imagem: Ricardo Stuckert/Instituto Lula/Wilson Dias/Agência Brasil
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

08/03/2021 18h33

A decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de anular todas as condenações do ex-presidente Lula pela Justiça Federal em Curitiba, enviando os processos para o Distrito Federal, onde deverão começar do zero, tem efeito imediato, mas não é definitiva. Após recurso a ser apresentado pela Procuradoria-Geral da República, o plenário decidirá se mantém a decisão monocrática de Fachin.

Por ora, no entanto, Lula está fora do alcance da Lei da Ficha Limpa, e analisar o que isso significa para o tabuleiro político para as eleições presidenciais de 2022 não é mais um exercício desvairado e sem sentido — como parecia ser até ontem.

Se a decisão de Fachin for mantida e Lula resolver disputar a presidência — uma possibilidade que ele e a cúpula petista nunca deixaram de aventar e que será cegamente acatada por todos —, aumenta a chance de a reedição da polarização com o PT que ajudou a eleger Jair Bolsonaro em 2018.

A um ano e meio das eleições, as pesquisas de intenção de voto mostram uma presença quase certa de Bolsonaro no segundo turno. Sem Lula no páreo, a disputa pelo segundo colocado fica embolada.

Segundo o levantamento feito pelo instituto Paraná Pesquisas, por exemplo, divulgado no último dia 5, Sergio Moro (sem partido), Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT) e talvez Luciano Huck (sem partido) disputariam uma vaga para enfrentar Bolsonaro no segundo turno. Moro aparece com uma frágil vantagem em relação aos oponentes.

Haddad teria dificuldade para colocar o PT no segundo turno, podendo ser deixado para trás por candidatos de centro-direita, como Moro, ou por outras alternativas de esquerda, como Ciro Gomes.

Com o nome de Lula nas urnas eletrônicas, porém, o petista se distanciaria, se as eleições fossem hoje, dos outros adversários de esquerda ou centro-direita, com uma vantagem de 6,4 pontos percentuais sobre Moro.

O instituto paranaense não simulou enfrentamentos de segundo turno, mas outra pesquisa, feita pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria), sugere que Lula teria grandes chances no mano a mano contra Bolsonaro.

Segundo o instituto, 50% dos entrevistados disseram que votariam com certeza ou poderiam votar em Lula. A mesma resposta foi dada em relação a Bolsonaro por 38% dos entrevistados. Não se trata de uma simulação de segundo turno entre os dois candidatos, mas revela o potencial de voto em cada um deles.

Outras pesquisas divulgadas em janeiro, contudo, indicam que Bolsonaro venceria Lula em um eventual segundo turno.

Trata-se de um cenário ainda muito incerto, portanto.

Não há dúvidas, porém, que para Bolsonaro seria melhor enfrentar Haddad do que Lula ou Moro no segundo turno. Com Lula na corrida, a chance de Moro ir para a disputa com o presidente diminui.

Ou seja, com Moro mas sem Lula, a repetição da polarização entre Bolsonaro e o PT era pouco provável. E isso era ruim para o presidente.

Com Lula, as chances de isso acontecer aumentam — mas não da maneira que Bolsonaro gostaria.

Outro que sai prejudicado se a decisão de Fachin se mantiver é (caso ainda tenha planos eleitorais) o próprio Moro, que como juiz foi o responsável por uma das condenações de Lula agora anuladas.

Com uma só canetada, Fachin afastou a possibilidade de Moro ser julgado no STF por parcialidade e atrapalhou seus eventuais planos eleitorais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL