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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Agressão a tucanos mostra que as ruas não vão derrubar Bolsonaro

3.jul.2021 - Manifestantes pedem impeachment de Bolsonaro em protesto no Rio - PILAR OLIVARES/REUTERS
3.jul.2021 - Manifestantes pedem impeachment de Bolsonaro em protesto no Rio Imagem: PILAR OLIVARES/REUTERS
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

04/07/2021 11h51

Os protestos deste sábado (4) contra o presidente Jair Bolsonaro ocorridos em diversas cidades brasileiras foram menos robustos do que os de 19 de junho. Em parte, isso aconteceu porque o caráter ostensivamente partidário (majoritariamente petista) dos atos anteriores espantou potenciais manifestantes de centro ou sem alinhamento político claro.

A adesão tímida e em cima da hora de grupos fora do espectro de esquerda, mais notadamente o PSDB de São Paulo, não foi capaz de diluir as cores das bandeiras e de dar um caráter suprapartidário aos protestos.

A revolta contra a gestão da pandemia pelo governo Bolsonaro, que adotou a disseminação do vírus como política, e contra os indícios de corrupção na compra de vacinas ultrapassa linhas ideológicas, mas muitos cidadãos não querem que aquilo que os motiva a ir para as ruas — a perda de um parente para a covid-19, por exemplo — sirva como combustível para projetos políticos com os quais não se identificam ou, até, desprezam.

As cenas de militantes do Partido da Causa Operária (PCO) tentando expulsar os manifestantes tucanos da Avenida Paulista servirão de desestímulo extra para que centristas e a direita não-bolsonarista, como o movimento Vem Pra Rua, compareçam aos próximos atos.

No Rio de Janeiro, os integrantes do PCO tentaram agredir até mesmo uma militante do PDT de Ciro Gomes.

O PCO é uma legenda nanica de extrema esquerda que compartilha de algumas pautas do bolsonarismo, como a aversão à grande imprensa e o armamento da população.

Militantes de outras agremiações de esquerda intercederam na briga para defender o direito dos tucanos de permanecer na manifestação, mas a verdade é que os radicais do PCO não são os únicos que se opõem a marchar lado a lado com o PSDB e com grupos de direita contra Bolsonaro.

Basta ver os comentários de perfis no Twitter de esquerdistas do PT, PSOL, PSTU, entre outros, que mesmo antes dos protestos afirmavam que sairiam na porrada se cruzassem com tucanos ou integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) nas manifestações.

De pouco adiantam as declarações de lideranças de esquerda como Gleisi Hoffmann, presidente do PT, para incentivar a adesão de outros grupos políticos aos protestos. "Avaliar os erros que cometeram e tentar recuperar o caminho do país para uma democracia é bom." Curioso, pois o PT nunca "avaliou" seus erros, que foram muitos e maiores.

A verdade é que as manifestações #foraBolsonaro estão cada vez mais com cara de comício pré-eleitoral do PT.

E a história recente mostra que protestos partidários não conseguem pressionar pelo impeachment de um presidente. Não foi assim com Fernando Collor e nem com Dilma Rousseff.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL