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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

A fraude nas eleições de 2022 já aconteceu

Jair Bolsonaro durante live em que reconheceu não ter provas de fraudes no sistema eleitora - Imagem: Reprodução/ TV Brasil
Jair Bolsonaro durante live em que reconheceu não ter provas de fraudes no sistema eleitora Imagem: Imagem: Reprodução/ TV Brasil
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

04/08/2021 16h05

O presidente Jair Bolsonaro não se cansa de repetir que, se o sistema de votação não for como ele quer, as eleições de 2022 serão fraudadas. Na realidade, a fraude no pleito do ano que vem já aconteceu. O culpado é o próprio Bolsonaro.

A fraude está na desconfiança no voto eletrônico que o presidente plantou entre seus apoiadores, não nas alegadas fragilidades do sistema em si. Desde sua implantação em 1996, as urnas eletrônicas têm garantido eleições com alternância de poder e sem evidências de fraudes.

Isso não significa que o comprovante do voto impresso deva ser descartado a priori. Há defensores do modelo à direita e à esquerda do espectro político. Não existe método de votação perfeito, 100% blindado contra falhas.

Mas não é isso que está em jogo na campanha que Bolsonaro faz por aquilo que chama de "voto auditável". O que ele quer, e já conseguiu, é criar um clima de desconfiança em relação ao processo de escolha dos representantes do povo.

Não é preciso que a desconfiança seja compartilhada por todos os eleitores, basta que a pulga esteja atrás da orelha dos seus apoiadores. Serão eles que, no caso de derrota de Bolsonaro em 2022, ajudarão a questionar o resultado do pleito.

A desconfiança foi sempre o maior, ainda que não o único, método de fraude eleitoral que garantiu e ainda garante a longevidade do regime chavista na Venezuela. De novo a comparação de Bolsonaro com Hugo Chávez? Sim, porque, por meio da análise das ações do venezuelano, é possível estudar todo o cardápio de estratagemas para usar a democracia para destruir a própria democracia.

Hugo Chávez foi escolhido presidente do país em eleições limpas realizadas em 1998. Depois disso, o processo eleitoral foi sendo corrompido aos poucos, seja através de mudanças nas regras do jogo, seja por meio de táticas para semear a desconfiança da população na lisura do sistema.

Os primeiros anos de Chávez no poder foram conturbados — ele vivia às turras com a imprensa e ainda não tinha controle total sobre o judiciário e sobre as forças armadas, como veio a ter depois — e ele quase foi expelido do cargo em um referendo realizado em 2004.

A revogação do mandato era uma possibilidade prevista na constituição que o próprio Chávez promulgou alguns anos antes. Para a convocação do referendo, era preciso reunir assinaturas de eleitores.

Pois bem, em 2003, um deputado chavista, Luis Tascón, vazou a lista dos cidadãos que haviam endossado a realização do referendo para encerrar o mandato de Chávez. Aliás, não apenas uma simples lista: tratava-se de um programa de computador com sistema de busca que continha até endereço e outros dados pessoais dos signatários. Qualquer pessoa no país podia ter acesso ao arquivo, que era vendido em CDs até por camelôs de Caracas. Os venezuelanos passaram a acreditar que o seu sigilo eleitoral não era inviolável.

E era exatamente esse o objetivo do governo. As pessoas que assinaram a convocação do referendo começaram a ser perseguidas politicamente. Funcionários públicos eram demitidos ou simplesmente deixavam de ser contratados, caso constassem na lista.

No ano seguinte, no dia do referendo, os venezuelanos foram às urnas desconfiados, com medo que o governo pudesse descobrir como votaram — apesar do sistema de votação ser diferente, teoricamente mais seguro, do que o das assinaturas. Chávez venceu, e permaneceu no cargo.

Desde então, nunca mais os venezuelanos recuperaram a confiança no sistema de votação. A cada novo pleito, o governo chavista criou novas formas de fraudar o processo, mas a mais eficiente delas sempre foi a desconfiança.

Em outubro de 2012, o governo venezuelano incorporou à urna eletrônica um comprovante impresso e um sistema de biometria nas eleições presidenciais em que Chávez derrotou o oposicionista Henrique Capriles.

Este colunista estava lá em Caracas, acompanhando as eleições, visitando diversos centros de votação e conversando com eleitores que tinham a convicção de que o sistema de biometria permitiria ao governo saber como cada cidadão havia votado. O próprio governo havia se encarregado de dar asas a esse boato.

Há algumas diferenças, claro. A estratégia de desconfiança eleitoral de Chávez era voltada para os eleitores de oposição, para impor o medo, enquanto a de Bolsonaro é voltada para os seus apoiadores, já que ninguém acredita — ainda — que ele possa controlar o sistema de votação ou de contagem.

Com ou sem voto impresso, a fraude de 2022 já aconteceu. Bolsonaro age como o incendiário que grita "fogo!" antes de ele próprio riscar o palito de fósforo e jogar sobre a gasolina.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL