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Diogo Schelp

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Zé Trovão é o Che Guevara do bolsonarismo

O caminhoneiro Marcos Antônio Pereira Gomes, conhecido como Zé Trovão - Reprodução/TikTok/zetrovaoavozdasestradas5
O caminhoneiro Marcos Antônio Pereira Gomes, conhecido como Zé Trovão Imagem: Reprodução/TikTok/zetrovaoavozdasestradas5
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

12/09/2021 04h00

Toda revolução com vistas a instalar um projeto autoritário de poder tem o Che Guevara que merece.

O Che do bolsonarismo é Zé Trovão, nome de estrada de Marcos Antônio Pereira Gomes, caminhoneiro que fugiu para o México para não ser preso por seu papel na mobilização dos atos de 7 de setembro contra o Supremo Tribunal Federal (STF).

Espera aí, o bolsonarismo é um movimento revolucionário? Tanto quanto o golpe de 1964 foi uma revolução, como gostam de classificar seus apoiadores nostálgicos.

É assim que muitos seguidores do presidente Jair Bolsonaro gostam de ser vistos, como revolucionários. No início deste governo, a "revolução" bolsonarista era apresentada como uma "revolução cultural", expressão usada, por exemplo, pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) durante uma entrevista no YouTube com o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, em fevereiro do ano passado.

O propósito do filho do presidente seria quebrar "a hegemonia da esquerda, também dentro das universidades, dentro da internet, aqueles lugares que eles dominam e não permitem nenhum debate". A "revolução cultural" bolsonarista, assim como sua homóloga maoísta, no extremo oposto do espectro ideológico, portanto, é essencialmente anti-intelectual.

Uma observação evidente dos atos a favor de Bolsonaro, contra o STF e, em grande medida, pró-intervenção militar do último 7 de setembro é que os manifestantes têm pressa. Eles estão insatisfeitos com as decisões do Judiciário e do Congresso Nacional e pensam que esses dois poderes atravancam a atuação do presidente, mas não se satisfazem em pedir mudanças dentro das regras do jogo institucional.

Alterar a composição do STF gradualmente, por meio da nomeação de novos integrantes a cada vez que abre uma vaga por aposentadoria, por exemplo, está fora de cogitação. Eles querem uma corte suprema conservadora, "que respeite a Constituição", e é para ontem.

Tampouco importa se a agenda do voto impresso foi recusada pela Câmara dos Deputados, cujos membros foram tão legitimamente eleitos quanto o presidente. Querem voto impresso, nem que seja na marra. Nem que seja preciso chamar o Exército.

Os influenciadores bolsonaristas, esses que precisam encontrar novos e mirabolantes argumentos a cada dia para passar pano nas declarações e nos atos de Bolsonaro, saíram-se com pérolas hilárias para justificar as falas golpistas do presidente nos atos de 7 de setembro em Brasília e em São Paulo.

"Ninguém é obrigado a obedecer a uma decisão inconstitucional da Justiça". Esse foi um dos argumentos usados pelos passadores de pano para explicar porque não havia mal nenhum na ameaça de Bolsonaro de desobedecer a decisões que viessem da caneta do ministro Alexandre de Moraes.

Argumento, aliás, que foi repetido dois depois pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) — logo desmentido, porém. Os recuos estão na moda em Brasília.

Também surgiram explicações estranhíssimas de que o presidente estaria apenas aplicando a conhecida estratégia de desobediência civil para mudar o status quo da política brasileira, como se Bolsonaro fosse uma espécie de Martin Luther King ou Mahatma Gandhi da extrema direita.

Quanto a tentar promover as mudanças na política e no sistema judiciário pela via institucional, da legalidade, o argumento era um só: o establishment não permite fazer isso "no tempo que queremos".

O bolsonarismo quer mudanças radicais e, por isso, se entende revolucionário. O que nos faz voltar a atenção para Zé Trovão, o Che Guevara do bolsonarismo.

Claro que há mais diferenças do que semelhanças entre os dois. Zé Trovão é apenas um revolucionário embrionário, mal despontou para a (talvez curta) fama. Ele diz ser um líder dos caminhoneiros, mas outros líderes caminhoneiros nunca ouviram falar nele.

Guevara, por sua vez, tem história: ajudou a derrubar uma ditadura e a instalar outra em Cuba, fez discurso na ONU em que defendeu o fuzilamento de opositores, foi um péssimo ministro da Indústria e acabou sendo enviado para espalhar a revolução em outras nações miseráveis até morrer, executado, na selva boliviana.

O que ambos têm em comum é o paradoxo de se apresentarem como lutadores da liberdade. Che defendia o "ódio intransigente ao inimigo". Zé diz querer uma "democracia realmente democrática, nem que para isso tivéssemos que mudar o corpo do STF".

Ou seja, para Zé Trovão, assim como para centenas de milhares de brasileiros que foram às ruas no dia 7 de setembro, é legítimo destruir a democracia para moldar as instituições aos interesses de um dogma político — tudo em nome, claro, de um "país melhor" ou da "verdadeira democracia".

Nisso, Che aplaudiria Zé.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL