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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O faroeste de Bolsonaro

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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

10/10/2021 22h24

Na mesma semana em que os jornalistas independentes Dmitry Muratov e Maria Ressa receberam o Prêmio Nobel da Paz "pela corajosa luta" nas Filipinas de Rodrigo Duterte e na Rússia de Vladimir Putin, Sebastian Kurz renunciou ao cargo de primeiro-ministro da Áustria após a Promotoria do país anunciar que ele é investigado como suspeito de ter usado verba do governo para garantir cobertura midiática favorável.

O Brasil tem o pior dos dois mundos: governantes que atacam jornalistas em razão da publicação de informações incômodas e que usam verba pública impunemente para comprar apoio de veículos de empresários gananciosos. Estes, por sua vez, contratam ativistas ligados ao grupo político detentor do poder e turbinam salários de profissionais dispostos a moldar sua "opinião" conforme os interesses financeiros dos patrões. Toda essa claque oportunista, à qual se somam blogueiros de crachá lotados em gabinetes ou patrocinados por estatais, também ataca jornalistas inconvenientes ao regime.

O jornal russo fundado por Muratov já teve seis jornalistas assassinados, aos quais ele dedicou o prêmio dizendo não ser seu beneficiário certo. No Brasil - como no México, na Colômbia e em Honduras -, assassinatos de jornalistas geralmente se dão em cidades longe dos grandes centros, quando eles cobrem "temas que tocam muito de perto os detentores do poder local", de acordo com balanço dos Repórteres Sem Fronteiras. Contra os profissionais dos grandes centros, que trabalham em veículos maiores e fazem denúncias de impacto nacional, as tentativas de assassinato costumam ser de reputação.

Um caso ilustrativo do faroeste dos rincões rendeu no dia 1º de outubro a prisão do deputado estadual Jalser Renier, de Roraima, suspeito de ter encomendado o sequestro de Romano dos Anjos, "motivado por vingança ou represália ao modo de atuação jornalística, tendo em vista que a vítima realizou diversos ataques e críticas ao trabalho do então presidente da Assembleia Legislativa", segundo o delegado João Evangelista. Renier foi solto dias depois, mas agora tem de usar tornozeleira eletrônica e só pode sair de casa para sessões na Assembleia. Em 2020, Romano foi levado por homens armados, no próprio carro, para uma mata, onde ficou amarrado por quase 12 horas, sob tortura. Encontrado no dia seguinte, ele tinha hematomas nas pernas e um braço quebrado.

Já um caso ilustrativo de tentativa de assassinato de reputação de jornalista rendeu ao deputado federal Eduardo Bolsonaro, em 22 de setembro, uma condenação em segunda instância. O filho 03 do presidente tem de pagar 35 mil reais a Patrícia Campos Mello, da Folha, por ofensa baseada na ilação - que havia sido feita pelo depoente Hans River na CPMI das Fake News e refutada pelo jornal - de que a repórter teria se insinuado sexualmente em troca de informações. Em primeira instância, Jair Bolsonaro também já havia sido condenado por ter feito chacota sobre o episódio ao explorar a ambiguidade da palavra "furo", o que violou "a honra da autora, causando-lhe dano moral".

Curiosamente, quando a TV Globo noticiou o depoimento do porteiro que atribuiu a Jair Bolsonaro a voz no interfone para liberar a entrada em seu condomínio no Rio de Janeiro de um miliciano envolvido no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, nem a informação da reportagem de que o presidente estava em Brasília - e, portanto, não podia ter atendido - dissuadiu Bolsonaro de xingar os jornalistas de "patifes" e "canalhas". Ou seja: quando um depoimento existente, mas com atribuição falsa de um ato, compromete a honra de uma repórter, o presidente reitera o ataque à repórter; quando um depoimento existente, mas com atribuição falsa de um ato, compromete a honra dele mesmo, o presidente também ataca os repórteres, ainda que eles tenham noticiado a impossibilidade de seu envolvimento no ato relatado.

O populismo bolsonarista pressupõe não a coerência da ação humana baseada em princípios gerais aplicáveis a situações diversas a partir de seus fundamentos comuns, mas, sim, a conveniência da ação política baseada no maniqueísmo do "nós" contra "eles". Esse "nós" inclui a imprensa amiga, claro. Embora esteja em atrito com Davi Alcolumbre, em razão da procrastinação da sabatina de André Mendonça, indicado ao STF, Jair Bolsonaro têm em comum com o ex-presidente do Senado o apreço pela cobertura favorável em veículos abastecidos com verba pública. Alcolumbre destinou 410,4 mil reais de sua cota parlamentar a um site e um jornal para divulgarem seu trabalho no Amapá. O governo Bolsonaro prefere abastecer uma rádio chapa-branca e alguns canais governistas de TV, além de seus apresentadores camaradas.

O presidente da República precisará de todos eles em 2022 para esconder das massas de manobra mais de 600 mil mortos por Covid-19 e as fortunas torradas não apenas com verbas de publicidade federal, mas também com medicamentos ineficazes, cartões corporativos, fundão eleitoral e orçamento secreto, sem falar da alta da inflação, do rachadão familiar, da offshore da família Guedes, das interferências na Polícia Federal e da sabotagem do combate à corrupção e à improbidade administrativa. Tudo isso que a PGR bolsonarista finge não ver, nem muito menos faz Bolsonaro renunciar ao cargo.

"O jornalismo livre, independente e baseado em fatos serve para proteger contra o abuso de poder, mentiras e propaganda de guerra", disse Berit Reiss-Anderson, presidente do conselho do Nobel. Maria Ressa e sua empresa de mídia digital de jornalismo investigativo nas Filipinas, a Rappler, "mostram", segundo ele, "como as redes sociais são usadas para espalhar fake news, assediar oponentes e manipular o discurso público". "Rappler deu atenção à campanha assassina do regime de Duterte. O número de mortes é tão alto que parece uma guerra contra a própria população do país."

O Brasil tem suas peculiaridades reais, virtuais e sanitárias. Mas, assim como a Áustria, precisa de mais Ressa e Muratov, menos populistas e suas claques.

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PS: Cheguei aos TOP 3 do Prêmio iBest na categoria Melhor do Brasil em Política e agradeço imensamente a todos que estão votando em meu nome na final, onde concorro individualmente com dois grupos de comunicação. Para confirmar seu voto, clique aqui.

Muito obrigado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL