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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O preço de Lula e Bolsonaro

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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

20/12/2021 17h46

"Que, quanto mais vos pago, mais vos devo".

O verso escrito no século 16 é do poeta português Luís de Camões, cujo eu-lírico, de tão encantado com uma mulher, não apenas lhe entrega "a vida e alma e esperança", dizendo "tudo quanto tenho, tudo é vosso", mas ainda se julga devedor da amada, em razão da felicidade proporcionada pela sua contemplação.

O arremate do soneto camoniano subverte a oposição entre pagamento e dívida, em prol da manifestação de gratidão devocional, turbinada a cada doação amorosa.

Quanto mais ele paga com seu amor, mais se endivida com ela.

É de se perguntar, ao longo da corrida presidencial de 2022, se os brasileiros amam tanto assim Lula ou Jair Bolsonaro que, quanto mais pagam pelos prejuízos decorrentes de mensalão, petrolão, rachadinhas e orçamento secreto, mais devem ao sistema político valores como os 5,7 bilhões de reais do fundão eleitoral, aprovados pelo Congresso. No PT de Lula, 49 dos 51 deputados votaram a favor. No PL de Bolsonaro, 38 dos 40.

"Aumentar o fundo eleitoral para 5,7 bilhões de reais é uma decisão errada", comentou Sergio Moro, cujo partido, o Podemos, votou contra o fundão, com 8 dos 10 deputados. "Não é apropriado, especialmente neste momento, em que tantos brasileiros passam por enormes dificuldades. Também não se justifica mais essa agressão ao teto de gastos."

Os dois votos favoráveis da legenda foram o do bolsonarista José Medeiros, que depois fingiu ter confundido "sim" e "não" por "desencontro com a assessoria", e o de João Carlos Bacelar Batista, que, ainda assim, não deve ser confundido com seu xará de nome e um sobrenome, João Carlos Paolilo Bacelar Filho. Este último, do PL, virou réu por peculato na Primeira Turma do STF em fevereiro de 2020, mas lidera a lista de parlamentares da Bahia agraciados com emendas de relator, ou seja, com dinheiro liberado no varejo do Congresso para aplicação sem transparência em reduto eleitoral, em troca do apoio ao governo Bolsonaro.

Para se ter uma ideia, o governo empenhou 3 bilhões de reais em emendas secretas apenas em outubro, às vésperas das votações das PECs da Vingança e dos Precatórios. Ainda justificou esta última, que dá calote em credores e rompe o teto de gastos, alegando que faltava dinheiro para elevar a 400 reais o Auxílio Brasil, embora não falte para comprar votos de parlamentares, nem para quase triplicar o fundão eleitoral.

O senador Alessandro Vieira vem até dizendo que "não adianta dar com uma mão e tirar com a outra", mas a percepção arraigada no eleitor mais dependente do Estado e menos antenado em política é de que adianta, sim, dar com uma mão, pouco que seja, porque ele nem sabe o que faz a outra, nem concebe que ela esteja torrando bilhões de reais que poderiam render melhores preços, empregos, serviços públicos e programas sociais.

Que Lula deu pouco aos pobres e muito aos ricos, até Ciro Gomes sabe, como apontou seis meses antes de ser alvejado pela PF e buscar o colo do ex-presidiário. Mas que Lula e Bolsonaro privilegiam os interesses dos poderosos, em detrimento da qualidade de vida de um povo engambelado com afagos eleitoreiros, é algo que precisa ficar mais claro no discurso da terceira via, à qual cabe projetar um Brasil justo para todos.

A foto de Lula com Geraldo Alckmin, conhecidos pelos codinomes "amigo" e "pastel/pudim/bolero" entre os delatores da Odebrecht, ilustra a união dos políticos atendidos pelo departamento de propinas da empreiteira em troca de vantagens que tornavam desleal sua concorrência com empresas republicanas. Essa união é amparada pelo lulista Ricardo Lewandowski e pelo tucano Gilmar Mendes na Segunda Turma do STF, com a ajuda do bolsonarista Kássio Nunes Marques, ligado ao Centrão.

Quanto mais os ministros do Supremo, ou Augusto Aras, entregam a impunidade a seus padrinhos e aliados, aplicando para trás as regras que criaram no meio do jogo, mais parecem dever a eles, em gratidão devocional turbinada a cada voto contra a Lava Jato.

Ser objeto do amor platônico da maioria do povo, com a chancela da mais alta Corte do país ou da PGR, é o ideal de Lula e Bolsonaro, que se vendem como "ideia" ou "mito" para receber "a vida e alma e esperança" de brasileiros voluntariamente endividados, como se estivessem diante de deusas da beleza e da graça no esplendor de Portugal, uma das maiores potências mercantilistas da Europa na época de Camões.

Com os porta-vozes do sistema espalhando que a pauta anticorrupção é ultrapassada, será preciso, em 2022, ir muito além do repúdio técnico à autoproteção conjunta de lulistas e bolsonaristas. Nenhum candidato terá sucesso contra Lula e Bolsonaro sem despertar milhões de cidadãos do estado de contemplação feliz de imagens falseadas.

É hora de resgatar o amor próprio de um eleitorado que se deixa facilmente deslumbrar.