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Felipe Moura Brasil

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Barra Torres confrontou Bolsonaro com princípios morais e cristãos

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Felipe Moura Brasil

Felipe Moura Brasil é âncora da BandNews FM e colunista do UOL. Vencedor do Prêmio Comunique-se na categoria Jornalista Influenciador Digital. Maior influenciador político do Brasil no Twitter, de acordo com estudo da empresa de big data Stilingue. Trabalhou nas revistas Veja e Crusoé, no site O Antagonista e na rádio Jovem Pan, onde também foi diretor de Jornalismo. Reúne suas várias frentes de trabalho em www.felipemourabrasil.com.

Colunista do UOL

09/01/2022 14h49

"Na verdade, a mentira é um vício maldito. Apenas pela palavra somos homens e nos ligamos uns aos outros. Se conhecêssemos o horror e o peso da mentira, iríamos persegui-la a fogo mais merecidamente que outros crimes."

Foi o que escreveu o francês Michel de Montaigne no livro Os ensaios, mais precisamente no capítulo IX, intitulado "Dos mentirosos" e datado de 1580. O ensaísta ainda achava "que costumamos perder tempo castigando despropositadamente nas crianças erros inocentes, atormentando-as por causa de ações irrefletidas que não deixam marcas nem consequência". As mentiras, sim, "deveríamos combater tenazmente", pois "elas crescem junto com as crianças". "E, depois que se deu à língua esse andamento falso, é espantoso como é impossível afastar-se dele."

Na falta de afastamento de Jair Bolsonaro deste andamento falso e, também, do cargo, o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Antônio Barra Torres, combateu tenazmente as mentiras presidenciais, analisadas no artigo anterior desta coluna.

"Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar.

Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate."

Ao contrário do espectador-geral da República, Augusto Aras, que jamais exerceu a grandeza demandada pelo cargo de PGR, Barra Torres conhece o horror e o peso das mentiras sobre si, o órgão que preside e a pandemia, após a morte de mais de 620 mil cidadãos por Covid-19, incluindo centenas de crianças de 5 a 11 anos.

"Se, como a verdade, a mentira tivesse apenas um rosto, estaríamos em melhores termos, pois tomaríamos como certo o oposto do que dissesse o mentiroso", ponderava Montaigne há mais de 440 anos, quando nem sequer existiam redes sociais para turbinar o problema. "Mas o reverso da verdade tem cem mil formas e um campo indefinido."

Uma dessas formas, exploradas propositadamente pelo bolsonarismo em campos reais e virtuais, é a insinuação de interesses escusos por trás de decisões técnicas tomadas para salvar vidas - uma aplicação específica do método geral de plantar dúvidas sobre fatos, pessoas e órgãos que contrariam narrativas políticas e com os quais se quer polarizar.

"Qual é o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual o interesse daquelas pessoas taradas por vacina? É pela sua vida? É pela sua saúde?", plantara o presidente, agora confrontado com os princípios constitucionais, morais e cristãos que finge defender.

"Como cristão, Senhor Presidente, busquei cumprir os mandamentos, mesmo tendo eu abraçado a carreira das armas. Nunca levantei falso testemunho", frisou Barra Torres, médico e contra-almirante da Marinha, com 32 anos de serviços prestados.

Não levantar falso testemunho é o oitavo mandamento do cristianismo, afrontado por Bolsonaro a cada vez que atinge a honra alheia com uma acusação sem provas. A prescrição moral veda o falseamento da verdade na relação com os outros, como uma infidelidade fundamental a Deus, a Verdade da qual se deve ser e dar testemunho.

Não tomar Seu santo nome em vão é o segundo mandamento, também afrontado por quem "tanto cita" Deus, sem praticar as ações correspondentes à doutrina cristã.

"Vou morrer sem conhecer riqueza, Senhor Presidente. Mas vou morrer digno. Nunca me apropriei do que não fosse meu e nem pretendo fazer isso, à frente da Anvisa."

Barra Torres poderia até ter especificado que nunca praticou rachadinha, roubando dinheiro do povo por meio de funcionários fantasmas, como membros da família Bolsonaro são acusados por testemunhas e investigadores de terem feito, motivo pelo qual sabotam o combate à corrupção. Mas ele deixou subentendido que cumpre, além das leis do país, o sétimo mandamento, conhecido como não roubar.

"Prezo muito os valores morais que meus pais praticaram e que pelo exemplo deles eu pude somar ao meu caráter."

Noutro dia, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, canonizou Michelle Bolsonaro como "mãe de todos os brasileiros", expressão geralmente atribuída a Nossa Senhora de Aparecida. Nossa mãe nunca recebeu de Fabrício Queiroz um depósito de 89 mil reais.

O "cristianismo" bolsonarista, na verdade, consiste em garantir a pastores aliados o perdão de dívidas de igrejas com o Estado, em troca de apoio político dentro delas para a eleição de 2022. O exercício moral e cristão, porém, está em ações muito mais dignas.

"Não há nada mais admirável do que as pessoas que se opõem ao poder de governantes arbitrários", tuitou Sergio Moro, sobre a nota do presidente da Anvisa. "Há uma longa tradição de coragem que construiu nossas liberdades. Parabéns ao Almirante Barra Torres por defender a sua honra e o direito dos brasileiros de vacinarem seus filhos."

Já era tempo de um militar rebelar-se contra o vício maldito da mentira.