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Fernanda Magnotta

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Veto de Trump no Facebook é recado eloquente para populistas do século 21

20 jan. 2021 - Donald Trump embarca no Marina One, saindo da Casa Branca pela última vez em seu mandato - Mandel Ngan/AFP
20 jan. 2021 - Donald Trump embarca no Marina One, saindo da Casa Branca pela última vez em seu mandato Imagem: Mandel Ngan/AFP
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

06/05/2021 04h00

O conselho de supervisão independente do Facebook anunciou ontem seu endosso à decisão da empresa de suspender as contas de Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, meses atrás. Trump foi banido após a invasão ao Capitólio no dia 6 de janeiro. O republicano foi considerado um pivô na escalada da violência durante a certificação do resultado do pleito de 2020 e foi acusado de disseminar notícias falsas sobre fraude eleitoral.

No período, além de ter sido suspenso do Facebook e do Instagram, Trump também foi permanentemente excluído do Twitter e vetado temporariamente do Youtube. Ao tomar conhecimento sobre a manutenção da suspensão, o ex-presidente referiu-se à deliberação como uma "desgraça total" e evocou o argumento da censura e do desrespeito à liberdade de expressão.

Não resta dúvidas de que é preciso muita cautela em estabelecer pesos e medidas no mundo político. O dilema do "poder moderador" ou de "quem vigia o vigia" é antigo e escorregadio. No caso do universo virtual há questões ainda mais sensíveis: a internet é um ambiente pouco regulado, os limites entre público e privado são imprecisos, a resposta das empresas de tecnologia é lenta e há muitas dificuldades em identificar redes de financiamento e combater ações orquestradas, bem como imputar responsabilidade sobre excessos, particularmente envolvendo o uso de perfis inautênticos.

Apesar disso, o "deplatforming" de Trump é uma reação direta ao movimento de "guerra de narrativas" que ele próprio ajudou a alimentar. No mundo da pós-política Trump fortaleceu um novo populismo particularmente complexo. Para além da "vida real", também no contexto das redes sociais, os populistas passaram a forjar uma separação da população em ao menos dois grupos falsamente homogêneos: elites progressistas e corruptas que se antagonizam a uma massa genuína, que precisa de um líder orgânico que fale por ela.

A política do ressentimento gerou, em vários países, posições antissistema, que consolidaram lideranças vindas de fora (os "outsiders") e que contestavam as estruturas de poder tradicionais. Por meio de linguagem sensacionalista, discursos radicalizados, guerras reputacionais e ações intimidatórias, o fortalecimento de figuras que se apresentaram como "anti-establishment" tem alimentado, desde então, movimentos de disputa em torno do conceito de "verdade" nas redes, o que culmina na manipulação de fatos e na desinformação com intenção sistemática de confundir as pessoas.

Nos Estados Unidos, especificamente, esse instrumento foi utilizado de forma recorrente por Trump. Dados do Pew Research Center apontam que a confiança nos processos eleitorais caiu de 70% para 34% entre republicanos após a derrota de Trump e suas alegações de que o sistema não era confiável e que as eleições haviam sido fraudadas. Fenômeno semelhante ocorreu quanto à desconfiança na vacina contra a covid-19 após manifestações negacionistas do presidente.

Os números gerais sinalizam que, ao fim da gestão Trump, 68% dos norte-americanos reconheciam que fake news afetavam muito a confiança nas instituições governamentais e mais cidadãos viam as notícias falsas como um problema maior para o país do que terrorismo (34%), imigração ilegal (38%), racismo (40%) e sexismo (26%).

O trumpismo se beneficiou por anos das redes e de seus poderosos instrumentos de desinteligência. Deixou marcas profundas no tecido social norte-americano —algumas delas serão irreversíveis e permanentes. Por ironia do destino, se defronta, agora, com a grande lição já preconizada por mentes brilhantes de nossa História: não existe liberdade sem responsabilidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL