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Fernanda Magnotta

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que o encontro de Bolsonaro com a neta do ex-ministro de Hitler nos conta

Beatrix Von Storch e Bolsonaro, em foto divulgada nesta semana - Reprodução/Instagram
Beatrix Von Storch e Bolsonaro, em foto divulgada nesta semana Imagem: Reprodução/Instagram
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

29/07/2021 04h00

Na última semana, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e outras lideranças do governo brasileiro, como os deputados Bia Kicis (PSL-DF) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), além do ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, encontraram-se com Beatrix von Storch, do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), em Brasília.

Propagadas nas redes sociais, as fotos revelaram reuniões entusiasmadas. A deputada alemã afirmou, pelo Instagram, que "em um momento em que a esquerda está promovendo sua ideologia por meio de suas redes e organizações internacionais em nível global, nós, conservadores, devemos nos unir". Do lado brasileiro, Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, fez coro, via Twitter, à ideia de que são "unidos por ideais de defesa da família, proteção das fronteiras e cultura nacional".

Sem dúvida, há muitos incômodos que derivam de episódios como esses. A parlamentar alemã é polêmica e controversa. Investigada por propagar ideias extremistas e xenófobas, ela é neta do ministro das Finanças de Adolf Hitler, Lutz Graf Schwer. Seu partido, a AfD, fundado em 2013, costuma enquadrar-se no que a literatura especializada chama amplamente de "far right" ou, nesse caso em particular, de "direita radical", nos termos do que classificam especialistas como Cas Mudde.

Durante a repercussão dos encontros, muitos analistas correram para classificar Beatrix von Storch e a AfD como "neonazistas", o que, da perspectiva rigorosamente conceitual, não é verdade. Embora existam, inclusive na Alemanha, grupos com esse perfil, eles são essencialmente antidemocráticos e antiliberais. São, portanto, afeitos a princípios totalitários.

Ao mesmo tempo, equivocam-se também os que tentam enquadrar Beatrix von Storch e a AfD simplesmente como "conservadores". Trata-se de um uso vulgar e conveniente do termo. Não é apenas ignorância teórica, mas parte de um projeto político mal-intencionado. A AfD e outros tantos grupos mundo afora não são simplesmente representantes de uma visão de mundo conservadora. São a voz de uma direita antiliberal.

A direita radical de que fazem parte Beatrix von Storch e a AfD é uma direita democrática, mas que reduz a democracia a uma prática plebiscitária, com simplificações do que representa a soberania popular e com riscos severos de opressão dos direitos fundamentais das minorias. É hostil aos princípios básicos do liberalismo político, incluindo amplos direitos civis.

É também profundamente antissistema: manipula ressentimentos das massas para rotular oponentes, controlar narrativas, atacar instituições e denunciar elites. A direita radical é, sem surpresa, populista. Manifesta-se como um sintoma crescente e de vocação global: não está somente na Alemanha, mas na Hungria, na Polônia, na Itália, na França, nos Estados Unidos, no Brasil e em tantos outros países.

Pode parecer preciosismo de acadêmico, mas não é. Faz parte não apenas da compreensão, mas, inclusive, do enfrentamento dos problemas dar às coisas os nomes apropriados, chamá-las pelo que de fato são.

O próximo passo, depois disso, é refletir sobre o velho ditado: "diga-me com quem andas e te direi quem tu és", mas isso é assunto para uma próxima coluna.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL