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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Política externa ideológica do governo Bolsonaro continua isolando o Brasil

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante evento no Palácio do Planalto, em Brasília - Adriano Machado/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante evento no Palácio do Planalto, em Brasília Imagem: Adriano Machado/Reuters
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

22/10/2021 11h56

Muitas são as marcas de longo prazo que a política externa do governo Bolsonaro deixará. Entre elas, o legado típico de uma diplomacia ideológica, que coloca de lado os interesses estratégicos do Brasil e, em vez de perseguir objetivos pragmáticos, se curva a decisões que salvaguardam o governo, mas não o Estado brasileiro.

Há tempos que vemos derreter o prestígio do país nos foros multilaterais. Também testemunhamos a desarticulação completa de nossa liderança no campo regional. Agora, mais do que nunca, os efeitos se manifestam também em relação aos parceiros historicamente prioritários para o Brasil na arena bilateral.

Para além dos desajustes com a Argentina e das ressalvas que vêm da União Europeia (incluindo o que tange ao acordo com o Mercosul), acompanhamos, nas últimas semanas, o estrangulamento mais acentuado também com China e Estados Unidos.

A China proibiu a importação de carne bovina do Brasil sob o argumento de que houve confirmação de dois casos de "vaca louca" por aqui no último mês. O veto, que era considerado temporário, já perdura por quase 50 dias, mesmo sem que novas manifestações da doença tenham sido comprovadas. A China é o maior importador de bovinos do Brasil, absorvendo quase a metade das remessas brasileiras.

Tanto a bancada ruralista do Congresso nacional quanto produtores do setor e diplomatas brasileiros consideram que as dificuldades de normalização das vendas do produto passam pela deterioração das relações bilaterais em função de sistemáticas manifestações do presidente e de seus aliados sobre a China e a insistente tentativa de responsabilização do país pela pandemia de covid-19.

No caso da relação com os Estados Unidos, também já ultrapassamos a fase em que desfrutávamos "apenas" da relativa indiferença do governo Biden, chegando, agora, a enfrentar declaradas restrições defendidas por lideranças daquele país.

Recentemente abundaram notícias e apurações que dão o tom sobre o assunto. Falam sobre congressistas dos Estados Unidos pedindo que o presidente retire oferta para que o Brasil se torne um parceiro extrarregional da OTAN. Falam sobre pressões para que os Estados Unidos punam o Brasil por desmatamento. Falam sobre preocupações com a qualidade de nossa democracia.

A diplomacia, que é feita de gestos e acenos, também é eloquente quando se trata do "não dito" ou do "não feito". Não se deve desprezar, portanto, o fato de que Biden e Bolsonaro não tenham se encontrado durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, mesmo estando hospedados no mesmo hotel. Também é vocal que o Brasil tenha sido excluído da primeira viagem do Secretário de Estado Antony Blinken à América do Sul.

No país da "política externa sem partido" e do "Brasil acima de tudo" parece que temos algumas contradições para administrar. Enquanto isso, vamos pagando o preço —em dólar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL