PUBLICIDADE
Topo

Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Feliz dia dos professores, apesar de

Krisanapong Detraphiphat/Getty Images
Imagem: Krisanapong Detraphiphat/Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

15/10/2021 11h41

Hoje, no caminho para o trabalho, recebi cumprimentos pelo dia dos professores. Pelas redes, também pude acompanhar a manifestação de vários colegas, alguns igualmente dedicados a esse ofício, que, por diversas razões, tanto se parece a um sacerdócio.

Sempre há motivos para comemorar o 15 de outubro. É uma oportunidade de celebrar os avanços da Ciência, o alargamento das fronteiras do conhecimento e dos horizontes humanos. As nossas conquistas, de nossos pares e de nossos alunos. É pretexto para celebrar as redes que criamos, redes de admiração e de gratidão que só se multiplicam e que nunca têm fim. É momento de exaltar a nossa resiliência e a disposição em estarmos abertos a aprender —aprender a aprender, nos últimos anos principalmente sobre tecnologia, metodologia e empatia. Sobre o quanto a vida é interdisciplinar e o mundo é pequeno, mas complexo.

Esses, porém, não são tempos fáceis. Estamos mergulhados, enquanto humanidade, em um pântano sombrio. Os nossos problemas não se restringem mais apenas à falta de investimentos e à negligência das políticas públicas para a Educação, mas a um conjunto de incursões conscientes de permanente desqualificação dessa instituição e de suas premissas basilares.

Na era da pós-verdade, nada é por acaso: negacionismo, militância contra elites intelectuais, desinformação. O populismo e o radicalismo se alimentam da difamação, da perseguição e da cultura da ignorância. Na câmara de eco que se tornou a internet, vemos seitas ideológicas capitaneando narrativas perigosas. Isso é muito grave. É o prenúncio de retrocessos civilizatórios significativos. Há sinais claros do tamanho do problema em que estamos nos metendo.

Na edição mais recente do relatório Free to Think, além de destacar pressões sobre as comunidades de ensino de todo o mundo em razão da pandemia de covid-19, há menção nominal a ataques ocorridos em países como Afeganistão, África do Sul, China, Colômbia, Estados Unidos, Gana, Iêmen, Índia, Israel, Polônia, Romênia, Rússia, Territórios Palestinos Ocupados, Turquia, Venezuela, além, claro, do Brasil.

A publicação desse material ocorre há alguns anos. Ele é produzido pela rede Scholars at Risk (em tradução livre, "Acadêmicos em risco"), com o objetivo de monitorar a perseguição a acadêmicos e a universidades globalmente. Em 2019, cabe citar, fomos destacados na primeira página do relatório, lugar anteriormente ocupado por países como Egito, Paquistão e Irã, por exemplo. Antes disso, o Brasil nunca havia sido mencionado.

As denúncias gerais do relatório reportam uma sorte de agressões e ameaças: desde violações a campi universitários mundo afora, até prisões ilegais e processos judiciais contra acadêmicos. Também incluem restrições governamentais à viagens voltadas a estudo de campo, pressões contra movimentos estudantis e ameaças legislativas e administrativas à autonomia universitária.

No caso brasileiro, em particular, todos sabemos que a Educação sofre de um antigo descaso estrutural, mas que nos últimos anos se agravou tanto no discurso quanto na prática. Das nefastas manifestações cotidianas de nossas autoridades, que constituem um vasto (e infeliz) cardápio de cantigas de escárnio, aos sistemáticos cortes de orçamento, temos testemunhado a implementação efetiva de uma estratégia que visa a vanguarda do atraso. Não há desenvolvimento, nem progresso, em um país que não prioriza a Educação.

Nós, professores, quando vamos ao trabalho, somos, muitas vezes, soldados anônimos buscando encarar as batalhas com alguma dignidade, dedicação e afeto. Fazemos isso porque sabemos que a educação muda o mundo, emancipa e nos torna livres. É exatamente por essa razão que precisamos falar sobre esse assunto. O 15 de outubro também serve para isso.

À nossa comunidade: feliz dia dos professores, apesar de. Vamos acreditar no poeta e fazer a nossa parte para que "amanhã possa ser outro dia".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL