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Fernanda Magnotta

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Putin pode formalmente declarar guerra à Ucrânia nesta segunda-feira

O presidente russo, Vladimir Putin - Yuri Kochetkov/Reuters
O presidente russo, Vladimir Putin Imagem: Yuri Kochetkov/Reuters
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Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta é doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro "As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no alvorecer da superpotência" (2016) e diversos outros capítulos de livros e artigos científicos. É co-criadora do “Em Dupla, Com Consulta”, um dos maiores canais dedicados ao ensino descomplicado de Relações Internacionais no Youtube Brasil. Já foi chefe de delegação do Brasil na Cúpula de Juventude do G-20, na China, acompanhou as eleições presidenciais dos Estados Unidos, em Ohio, a convite da Embaixada norte-americana em Brasília, e foi selecionada pelo Programa W30 da UCLA/Banco Santander como uma das 30 mulheres mais destacadas em gestão acadêmica no mundo. Contribui frequentemente com veículos da imprensa nacional e internacional analisando os Estados Unidos.

Colunista do UOL

08/05/2022 10h53

Há muita expectativa sobre como o governo de Vladimir Putin se comportará nesta segunda-feira, 9 de maio. A data marca uma efeméride importante para os russos, pois nela é celebrado o dia da vitória contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial.

Usualmente, na ocasião, ocorrem desfiles militares na Praça Vermelha, em Moscou, e em outras cidades do país, na tentativa de demonstrar poder e de reforçar as narrativas identitárias do povo russo.

Neste ano, porém, a data vem acompanhada de tensão adicional, uma vez que, no contexto do conflito com a Ucrânia, diferentes pressões se impõem contra Putin. O único consenso entre os especialistas, até o momento, é de que certamente a ocasião servirá como ferramenta de propaganda do governo.

Os rumores que vêm de Moscou indicam que, em fevereiro, quando da invasão da Ucrânia, Putin tinha em mente que poderia declarar a vitória contra esse país no 9 de maio. Não à toa, portanto, o governo teria vendido a invasão como uma tentativa de "desnazificar" a Ucrânia, o que comporia uma lógica com forte apelo discursivo e simbólico.

Apesar disso, com o desenvolvimento do conflito, que revelou dificuldades de avanço das forças armadas russas e maior capacidade de resiliência dos ucranianos, o plano teve de ser adaptado. Na ausência de grandes vitórias para celebrar, portanto, Putin precisaria ater-se a outras questões, se deseja usar a ocasião para algum propósito que lhe seja conveniente.

Uma primeira possibilidade seria concentrar-se em comemorar conquistas pontuais, como a tomada de Mariupol e o controle da região do Donbass, indicando controle da situação e pontuando que os objetivos da "operação militar especial" teriam sido alcançados a contento. A Rússia, portanto, teria vencido a disputa dentro de um escopo específico, e realizado, com isso, a missão a que se propôs desde o princípio. Todo o resto, nesse sentido, seria apresentado como elocubração de ambições histericamente propagadas pelo Ocidente, mas sem lastro na realidade.

No extremo oposto, um segundo cenário —esse sugerido por autoridades ocidentais e que ganhou espaço nos últimos dias— aponta para a possibilidade de que o Kremlin não apenas se contente em comemorar o que já tem nas mãos, mas que veja na efeméride uma oportunidade de ampliar sua atuação. Nesse caso, a especulação é de que a Rússia poderia formalmente declarar guerra contra a Ucrânia, deixando para trás o status que adota desde o início dessa crise. A falta de progresso, nesse caso, empurraria Putin para uma ofensiva ainda mais dura e para um novo capítulo do conflito.

Esse cenário envolveria o aumento dos poderes do presidente, podendo incluir não apenas o aumento de recrutamento para o combate, mas também a eventual imposição de uma lei marcial na Rússia, que substituiu leis civis por leis militares. Em casos extremos, isso poderia dar a Putin a prerrogativa de reorganizar muitos aspectos da sociedade, incluindo fechar fronteiras, controlar o abastecimento de alimentos, confiscar propriedades privadas entre outras coisas. Até hoje, desde a invasão de fevereiro de 2022, os porta-vozes do governo russo sempre negaram boatos envolvendo imposição de lei marcial.

Todos os olhos virados para Moscou em 9 de maio. A ver.