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Jamil Chade


Sob crise financeira, ONU apaga luzes, desliga elevadores e raciona limpeza

Cartaz na ONU informa que elevador está fora de serviço por medida de contenção de gastos - Jamil Chade/UOL
Cartaz na ONU informa que elevador está fora de serviço por medida de contenção de gastos
Imagem: Jamil Chade/UOL
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

06/11/2019 04h02

Numa crise de liquidez sem precedentes, a ONU começa a tomar medidas emergenciais para evitar uma falência.

Quem percorre os corredores da entidade em Genebra, na Suíça, descobre hoje elevadores fora de serviço, escadas rolantes desligadas, luzes e até mesmo o aquecimento apagado.

Num dos cartazes nos corredores da sede das Nações Unidas, a administração alerta que nem todos os serviços de limpeza estarão funcionando.

A falta de dinheiro sempre permeou a realidade do organismo internacional. Mas questionado por governos populistas e atacado por regimes ditatoriais, a entidade vive alguns de seus dias mais complicados.

Numa carta enviada aos governos de todo o mundo, a organização alertou em setembro que estava prestes a ficar sem liquidez e apelava para que os países fizessem os pagamentos de suas contribuições obrigatórias.

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Sem esse dinheiro, salários poderiam ser suspensos, além de interrupções em operações pelo mundo.

Até o início de setembro, o Brasil era o segundo maior devedor da ONU, acumulando pagamentos atrasados no valor de US$ 433,5 milhões para todas as áreas da entidade. Para o orçamento regular, a dívida seria de US$ 143 milhões.

Dados oficiais da secretaria-geral indicam que, nos oito primeiros meses do mandato de Jair Bolsonaro, o Palácio do Planalto não destinou nenhum centavo ao orçamento regular da entidade internacional, apesar de se tratar de uma obrigação. Bolsonaro só é superado pelo governo de Donald Trump no que se refere às dívidas.

Na carta, o secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, explicou que a entidade vive sua pior crise de dinheiro na década.

Segundo ele, havia o risco de a liquidez chegar ao final no dia 31 de outubro, com a ONU sendo obrigada a dar um calote em serviços já contratados e mesmo suspendendo o pagamento de funcionários.

De acordo com fontes na entidade, a falência no dia 31 de outubro conseguiu ser evitada, diante do corte radical de gastos e do pagamento feito por alguns países.

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Na carta, Guterres lembrava que a contribuição não é uma opção e faz parte das obrigações dos Estados. Segundo ele, um pagamento urgente da dívida é "a única forma de evitar um default que poderia colocar em risco as operações globais".

No total, Estados destinaram US$ 2 bilhões para o orçamento regular da ONU em 2019. Mas o buraco é de US$ 1,3 bilhão.

Alessandra Velucci, diretora de Comunicações da ONU em Genebra, explicou que o drástico corte nos serviços do prédio tinha como objetivo evitar que os cortes também chegassem aos salários.

Além de luz e limpeza, foi determinado que nenhuma reunião ocorreria depois das 18h, para evitar o pagamento de horas extras. O horário de abertura do prédio também mudou, enquanto outros serviços básicos foram suspensos.

A crise, porém, não é de dinheiro. Nos mesmos corredores à meia-luz, embaixadores admitem que a crise é do multilateralismo, atacado por grandes potências. Nesta semana, o governo de Donald Trump anunciou sua saída do Acordo Climático de Paris. E, por horas, a ONU evitou criticar o maior doador de dinheiro da entidade.