Topo

Coluna

Jamil Chade


Chavista disse que defenderia "até golpista Temer" se Brasil fosse invadido

5.mai.2019 - Ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza durante conferência de imprensa em Moscou - Kirill Kudryavtsev/AFP
5.mai.2019 - Ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza durante conferência de imprensa em Moscou Imagem: Kirill Kudryavtsev/AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/11/2019 00h00

Um dos principais nomes do chavismo na Venezuela garante: se um dia o Brasil fosse invadido, Caracas estaria ao lado de Brasília. A frase é de Jorge Arreaza, chanceler de Nicolas Maduro e chefe da diplomacia do governo venezuelano.

Seus comentários fazem parte de uma conversa que ele manteve, por WhatsApp, com o ex-presidente do Panamá, Juan Carlos Varela. As mensagens foram vazadas por um grupo anônimo à imprensa panamenha. A coluna pode confirmar que o telefone é de fato do chanceler.

"A nós nos dizem amanhã que vão invadir o Brasil e fechamos fileiras com o golpista (Michel) Temer", escreveu Arreaza a Varela, no dia 17 de abril de 2018. Entre 2013 e 2016, ele ainda havia sido o vice-presidente de Maduro.

O chanceler se queixava naquele momento da ofensiva do Grupo de Lima contra seu país e da falta de solidariedade latino-americana contra a ofensiva de Donald Trump, que chegava a sinalizar para uma "opção militar".

Momentos antes, Varela havia alertado a Arreaza sobre a crise em seu país. Mas insistiu que continuava a tentar um diálogo. "Fui o único que disse que Nicolas (Maduro) era um presidente escolhido democraticamente", disse. "Diante do presidente dos EUA", insistiu.

Alguns dias antes, também para defender sua posição, o chanceler compara a situação da Venezuela com o restante da região e volta a citar "golpe" no Brasil. "No México matam estudantes e jornalistas. Em Honduras, roubam eleições e comanda um ilegítimo. No Brasil, dão um golpe parlamentário de corrupção. Na Colômbia, matam um dirigente social diariamente e produzem cada dia mais droga. No Peru, a corrupção sai pelos poros. Mas aqui os corruptos, ditadores e assassinos são os venezuelanos", se queixou.

Negação

A conversa, que se prolonga por meses, alterna momentos ríspidos e troca de mensagens de amizade. Há ainda elogios à classificação do Panamá para a Copa do Mundo de 2018 e inúmeros comentários sobre Trump.

Mas as mensagens também revelam a resistência dos venezuelanos em admitir o êxodo de milhões de pessoas.

No dia 22 de março de 2018, Varela escreve sobre a possibilidade de um diálogo entre Maduro e a oposição:

- Jorge (Arreaza) , amigo, ustedes han visto que ya vam a llegar casi a 4 millones de venezolanos fuera de el pais. Por favor piesen bien esto. Nicolas , ustedes y el chavismo son una realidad politica por siempre en veneZuela. Busquemos el dialogo

Em resposta, sempre mantida em sua grafia original, o chanceler responde:

- Presidente (Varela) esos no son los números. De donde los saca? Los 700 mil que se fueron a Colombia la mitad son colombianos y los demás se fueron a Perú, chile, argentina. La cifra real real es de 1.6 millones que han salido en 2 años.

Minutos depois, ele ainda complementa:

- Es una migración nueva. Importante. Pero aquí hay 32 millones de venezolanos.


Hoje, meses depois daquela conversa, a ONU estima que 4,5 milhões de venezuelanos já estão fora do país e que, até o final de 2020, esse número pode superar a marca de 6 milhões, 20% da população do país.

Em outro trecho da conversa, o venezuelano critica a aliança entre os EUA e o Grupo de Lima, assim com o fato de que os bloqueios impostos por Trump estariam levando a um aprofundamento da crise.

"Os EUA com o apoio do Grupo de Lima colocaram a Venezuela contra a parede", admitiu Arreaza. "Até as contas dos funcionários da chancelaria e de empresários privados foram fechadas. Depois perguntam por que há migração. É meio esquizofrênico", criticou.

Ele ainda conta ao presidente do Panamá como esteve pessoalmente na Índia e na Turquia, abrindo contas em moedas locais "para poder mandar petróleo ou ouro".

Renúncia

O vazamento de mensagens que também envolveriam as investigações sobre a corrupção da Odebrecht no Panamá levou à renúncia da procuradora-geral do país centro-americano, Kenia Porcell. Ela liderava as investigações contra a empresa brasileira e dezenas de políticos locais, inclusive ex-presidentes.

Mas as revelações sobre possíveis pressões políticas acabaram gerando sua queda. Ela insiste, porém, que não teve qualquer atitude ilegal.

Além dos jornais locais, as informações estão reunidas em um website em que os autores apenas se apresentam como "um grupo de cidadãos latino-americanos comprometidos com a democracia e fartos com a corrupção e abuso de nossas autoridade".

Conhecido como "Varelaleaks", o caso levou Varela a emitir um comunicado criticando o vazamento. Segundo o ex-presidente, a interceptação de suas conversas foi "ilegal" e representa "o ato mais baixo de covardia de adversários políticos".

"O principal objetivo desses vazamentos é, sem dúvida, minar a credibilidade de nossas instituições democráticas e desviar a atenção sobre os casos de corrupção e luta contra o crime organizado no país", disse.

Jamil Chade