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Jamil Chade


"Chineses serão agressivos" nas privatizações em SP até 2022, afirma Doria

Doria planeja impulso nas privatizações em SP com dinheiro chinês - Divulgação
Doria planeja impulso nas privatizações em SP com dinheiro chinês Imagem: Divulgação
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

25/01/2020 04h01Atualizada em 25/01/2020 19h46

O governador de São Paulo, João Doria, afirma que vai acelerar os programas de desestatização no estado em 2020 e acredita que concessões e vendas poderão permitir uma arrecadação de pelo menos R$ 40 bilhões. Nesse processo, o governador avalia que a China deve atuar de forma agressiva e que aprofundará sua posição de maior parceira comercial do estado, se distanciando de americanos e argentinos.

Doria falou com exclusividade à coluna ao terminar o Fórum Econômico Social, em Davos. O governador examinou as oportunidades diante da situação da economia global e alertou sobre sobre os riscos que a concentração de renda pode gerar para uma democracia.

Para ele, o momento é o de dar maior ritmo de retirada do estado de alguns setores para abrir espaço para empresas privadas.

Durante o ano, concessões serão oferecidas nos setores rodoviário e metroviário. Duas linhas de trem também serão colocadas em concessão até julho. Uma delas vai ligar São Paulo ao Vale do Paraíba e a segunda fará o percurso entre a capital e Campinas.

Na lista do governo também estão 21 aeroportos que farão parte do programa. Desses, apenas quatro tinham voos regulares e, antes que fossem vendidos, um processo foi estabelecido para que linhas comerciais diárias atendessem cada um deles.

As vendas serão realizadas por blocos. Quem comprar um aeroporto em Ribeirão Preto (SP), por exemplo, terá também de desenvolver outros três aeroportos na região.

A lista de Doria ainda inclui a hidrovia Tietê-Paraná, parques, zoológicos e jardins botânicos. No caso do Complexo do Ibirapuera, o edital será publicado até março. Também haverá um esforço para as concessões no final de 2020 e início de 2021 dos portos de Santos e São Sebastião, em conjunto com o governo federal.

China, maior parceira

Na avaliação do governador, quem virá com força nesse processo de concessão será a China. Depois de abrir um escritório em Xangai em agosto de 2019, o governo do estado destaca que fechou o ano com compromissos de empresas chinesas de investir US$ 24,6 bilhões no estado até 2022.

De acordo com ele, os chineses destinarão US$ 20 bi em infraestrutura para disputar concessões rodoviárias, ferroviárias, em portos e aeroportos. "Os chineses serão muito agressivos e estarão muito presentes", afirmou Doria.

"A China já é o maior parceiro comercial de São Paulo e tem a chance de se distanciar em relação aos EUA e Argentina", disse o governador, numa referência ao segundo e terceiro colocados.

Doria e o ministro Paulo Guedes. Se Brasil tiver cuidado, cenário chileno não se repetirá, diz governador - Divulgação
Doria e o ministro Paulo Guedes. Se Brasil tiver cuidado, cenário chileno não se repetirá, diz governador
Imagem: Divulgação

Doria revelou que não vê esse avanço chinês como um problema para os EUA e afirmou que já deu exatamente esse recado aos representantes americanos. "Eu expliquei que não via isso como uma ameaça ou um risco", disse.

Nos encontros com os americanos, porém, Doria admitiu que os representantes do governo de Donald Trump deixaram claro que não querem perder espaço para os chineses no maior estado do Brasil, principalmente na concorrência pela banda larga 5G.

"Defesa da democracia" em Davos

Na Suíça, Doria acredita que a cúpula da economia mundial reconhece o Brasil depois das mudanças de governo no final de 2018. "O Brasil deixou de ser uma expectativa. Há uma visão mais realista do país, no campo econômico e político. O que há de bom e o que não há de bom", afirmou.

O governador indicou que, como resultado de mais de 30 encontros de Davos, ele teria garantido contratos e novos investimentos no estado no valor de R$ 17,2 bilhões nos próximos quatro anos.

Se pontos como a taxa de expansão do PIB de 2,6% em 2019 e a criação de 40% de todos os novos postos de trabalho do Brasil pesaram, o governador acredita que outros aspectos de sua política também facilitaram os contatos com os empresários estrangeiros.

A defesa de democracia, do direito da imprensa, do contraditório, o respeito à diversidade, renovação dos compromissos com Acordo Climática. Tudo isso contribuiu para criar clima positivo nas conversas.

Nos últimos meses, questões climáticas e de direitos humanos tem criado constrangimentos para o governo federal em suas relações com parceiros estrangeiros.

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"Não há paz social sem prosperidade econômica"

Em Davos, neste ano, a concentração de renda foi um dos temas debatidos. Os organizadores do evento deixaram claro que a desigualdade é uma ameaça para a estabilidade e mesmo para as democracias. O posicionamento da elite financeira mundial representa uma mudança profunda na agenda do evento.

No caso do Brasil, Doria insiste que essa deva ser uma prioridade e alerta que, quando populações são abandonadas, populistas são premiados em eleições.

"É importante para o Brasil para que haja uma política de redução de desigualdade social", disse. Segundo ele, a melhor forma de garantir isso é com geração de empregos e investimentos em educação.

Na avaliação do governador, a onda de protestos que ocorreu no Chile ou em outros países foi resultado de um abandono de uma parcela da sociedade.

Você não pode se deixar inebriar pelo sucesso econômico ou de prosperidade sem ter um olhar permanente aos mais pobres.

Doria também admite que é, em parte, esse abandono que abre espaço para a força do populismo.

"Um exemplo é a Venezuela", explicou. "O país já foi a economia mais avançada e prospera da América Latina, acima do Brasil ou México. Mas as elites inebriadas pelo sucesso se esqueceram que havia muita pobreza. Chávez veio e ganhou pela democracia. Não houve golpe. Foi um processo democrático. Quem votou nele? A população mais pobre e mais humilde", disse.

"A democracia deve estar protegida pela prosperidade econômica e social. Não há paz social sem prosperidade econômica. Temos que ter prosperidade econômica, mas com uma visão social para garantir que o resultado seja também compartilhado por aqueles que mais precisam", defendeu.

Em sua avaliação, se o Brasil "tiver cuidado", o cenário chileno não se repete. "Mas isso é um exercício diário e que passa pela geração de emprego e educação", completou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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