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Jamil Chade


Sob pressão, China manobra para abafar emergência sanitária global

Uma foto divulgada pelo Hospital Central de Wuhan mostra a equipe médica atendendo o paciente infectado com o coronavírus - Reuters
Uma foto divulgada pelo Hospital Central de Wuhan mostra a equipe médica atendendo o paciente infectado com o coronavírus Imagem: Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

24/01/2020 04h00

Depois de sete horas de reuniões entre especialistas na Organização Mundial da Saúde, adiamentos de anúncios e pressões nos bastidores, a entidade com sede em Genebra anunciou na noite de quinta-feira que seria "cedo demais" para declarar uma emergência sanitária global por conta do coronavírus.

A decisão, porém, rachou os especialistas convocados de forma extraordinária e demonstrou a dificuldade e pressões sobre um anúncio que poderia ter amplo impacto comercial e político. "Houve uma divisão dos membros", reconheceu Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

Mas a conclusão da OMS também foi resultado de uma ampla manobra do governo da China para evitar um constrangimento internacional. Politicamente, a declaração de emergência significaria um duro golpe contra a economia local e, em especial, contra o presidente Xi Jinping. Fontes em Genebra acreditam que, se a opção fosse por tal medida, o sinal que se mandaria ao mundo era de que Pequim não estaria sendo capaz de conter um surto, um certificado de uma falha no seu sistema de saúde.

Uma declaração de emergência antes do ano novo, no sábado, colocaria uma pressão doméstica ainda maior sobre o presidente. A data representa o período de maior intensidade de viajantes pela China.

De fato, Xi também passou a ser alvo de críticas internas, com uma população cada vez mais preocupada se pergunta por qual motivo Pequim levou tantos dias para tomar medidas e informar que o vírus poderia se propagar entre humanos. A crise se aprofundou depois que Zhou Xianwang, o prefeito de Wuhan, alertou que não havia recebido um alerta suficientemente claro sobre os riscos da doença.

Rapidamente, reapareceram as suspeitas de que Pequim poderia não ter aprendido a lição da epidemia de Sars, em 2003. Naquele momento, a tentativa de abafar a crise levou o governo a não divulgar dados sobre a doença, que saiu do controle e acabou matando mais de 700 pessoas.

Desta vez, o compartilhamento de informação com a OMS foi mais rápido. Mas a censura dentro da China continua a ser implementada. Mesmo nas redes sociais, entrevistas sobre como houve uma tentativa de abafar casos em 2003 voltaram a ser compartilhadas. E, logo, censuradas pelo regime.

A pressão sobre Xi Jinping vem ainda em um momento crítico para seu governo. Depois dos meses de protestos em Hong Kong e da vitória de grupos democráticos em Taiwan, uma crise sanitária teria um impacto profundo sobre o Partido Comunista.

Não por acaso, a ordem foi a de colocar máxima pressão para evitar a declaração de uma emergência global, um sinal de fragilidade do governo de Xi Jinping.

Racha

A coluna apurou que, no primeiro dia de encontros, na quarta-feira, uma parcela dos especialistas acreditava a declaração de emergência era necessária e que deveria ser realizada imediatamente. O fato de o vírus ser desconhecido e de haver confirmação de que existe a transmissão entre humanos foram alguns dos argumentos apresentados por esse grupo. Também pesava o fato de que o número de casos aumentava com rapidez e que, em pouco mais de 20 dias, pelo menos 17 mortes tinham sido identificadas.

O governo chinês, chamado para a reunião, fez questão de pressionar o grupo, mostrando informações sobre o avanço dos casos. Mas, em sua apresentação, Pequim insistiu que suas ações domésticas seriam suficientes e que teria condições, sozinha, de dar uma resposta ao surto.

Enquanto a reunião ocorria, o governo surpreendeu o mundo anunciando a quarentena de uma cidade com milhões de pessoas. Nas horas seguintes, na tentativa de dar um sinal claro para a OMS, novas restrições foram impostas, atingindo um total de 20 milhões de pessoas.

Quem estava dentro da sala revelou que, diante das medidas, uma parcela dos técnicos se indagou se aquilo estava sendo feito diante de informações não reveladas de que os casos estavam se espalhando. A resposta de Pequim foi de que essa não era a explicação. Mas sim um gesto para mostrar que o governo não havia perdido controle.

A OMS optou por suspender o encontro às 16.40h (horário europeu), sem saber o que fazer. Foi apenas quatro horas e meia depois e após adiar por duas horas uma coletiva de imprensa que um anúncio foi feito. Mas, para a surpresa de muitos, a entidade declarava que nada havia sido decidido e um novo encontro estava marcado para ocorrer no dia seguinte. A situação era inédita para o Comitê de Emergência da OMS.

Nas horas que se seguiram, dezenas de novas medidas anunciadas pelos chineses. Quando o grupo retomou a reunião, já na quinta-feira, o cenário era o de uso de militares para controlar aeroportos e estações de trem e uma dramática ação por parte de Pequim.

Emergência camuflada

A pressão funcionou para o governo chinês. A emergência global não foi oficialmente declarada. Mas a OMS apresentou uma lista de sete medidas que deveriam ser adotadas por Pequim. Todas elas fariam parte de uma lista de ações que deveriam ser tomadas caso a emergência fosse declarada. Ou seja, as ações de controle são as mesmas impostas em uma emergência.

Os chineses, por exemplo, terão de mais informação sobre sistemas de controle de riscos, aumentar a capacidade de seu sistema de monitoramento para detectar o surto, elevar a supervisão em todo o país, além de colaborar com atores internacionais para entender a epidemiologia do surto.

A OMS quer que Pequim reforce suas pesquisas sobre a origem do vírus, assim como locais de transmissão e eventuais tratamentos.

A entidade também pede que os chineses compartilhem com a entidade o sequencialmente genético e que existem casos de médicos e enfermeiras contaminadas. A agência de Saúde ainda solicita que aeroportos, rodoviárias, estações de trem e todos os pontos de entrada e saída de pessoas ao exterior contem com mecanismos de monitoramento.

Para o restante do mundo, a OMS também listou uma série de medidas que deveriam ser tomadas, com o a recomendação para que aeroportos sejam equipados com equipes de monitoramento e que os serviços de saúde possam isolar eventuais casos suspeitos. Uma vez mais, essas seriam as medidas adotadas numa emergência global.

Questionado, Tedros foi cauteloso sobre os chineses e insistiu que se trata de um "país soberano". "Esperamos que as medidas sejam efetivas e de curta duração", comentou, sobre a quarentena estabelecida sobre 20 milhões de pessoas. Ao ser eleito para o cargo máximo da agência de Saúde, o ex-chanceler etíope teve um cabo eleitoral fundamental: a China.

Ele, porém, não descarta convocar de novo o Comitê de Emergência, caso a situação ganha um novo rumo. Mas, se isso ocorrer, seria provável que uma reunião seja realizada apenas na semana que vem, depois das comemorações do Ano Novo na China.

Jamil Chade