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Jamil Chade

Pandemia pode causar desemprego de 25 milhões de pessoas e aumentar pobreza

Entregador passa alimentos por cima de barreira em bairro de quarentena em Wuhan, epicentro do surto de coronavírus na China - AFP
Entregador passa alimentos por cima de barreira em bairro de quarentena em Wuhan, epicentro do surto de coronavírus na China Imagem: AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

18/03/2020 10h51

O coronavírus pode deixar 25 milhões de pessoas sem emprego e aprofundar a pobreza no mundo, com uma perda de renda para os trabalhadores de US$ 3,4 trilhões em 2020. Os dados foram publicados pela Organização Internacional do Trabalho nesta quarta-feira, em Genebra, que destaca que a crise pode ser ainda maior que o colapso da economia mundial em 2008 e 2009.

No caso dos países emergentes, o desemprego pode atingir entre 1,7 milhão e 7,4 milhões de pessoas extras, por conta da nova crise internacional. A pobreza na categoria de países dos quais o Brasil faz parte também pode aumentar de forma substancial, com um volume extra de 14 milhões de trabalhadores em situação de miséria nessas economias.

Nos últimos dias, entidades internacionais tentam decifrar o impacto que a pandemia terá para a economia mundial. A previsão, segundo a ONU, é de que o PIB do planeta sofra um golpe de US$ 2 trilhões, jogando a economia mundial em uma recessão.

De acordo com a OIT, os "efeitos serão de grande alcance, empurrando milhões de pessoas para o desemprego, subemprego. A entidade apela governos a adotar medidas para uma resposta decisiva, coordenada e imediata, o que impediria que essa projeção se torne realidade.

A entidade estima que governos precisam proteger os trabalhadores no local de trabalho, estimular a economia e o emprego, e apoiar o emprego e os rendimentos. Para que a meta seja atingida, a OIT pede medidas de proteção social, o apoio à manutenção do emprego e benefícios financeiros e fiscais, incluindo para as micro, pequenas e médias empresas.

No melhor dos cenários, o impacto da representaria um aumento do desemprego global de 5,3 milhões de pessoas. Mas poderia chegar a 24,7 milhões. Hoje, são 188 milhões de pessoas sem trabalho. "Em comparação, a crise financeira global de 2008 aumentou o desemprego global em 22 milhões", apontou a OIT.

Outro alerta se refere ao aumento do subemprego, já que as consequências econômicas do surto do vírus se traduzem em reduções nas horas de trabalho e nos salários.

A queda no emprego também significa grandes perdas de rendimento para os trabalhadores. "O estudo estima que estas perdas se situam entre US$ 860 bilhões e 3,4 triliões de dólares até ao final de 2020. Isto irá traduzir-se em quedas no consumo de bens e serviços, afetando, por sua vez, as perspectivas das empresas e das economias", indicou.

A OIT estima que entre 8,8 milhões e 35 milhões de pessoas adicionais estarão na categoria daqueles que, apesar de trabalhar, continuam num estado de pobreza no mundo.

"Esta já não é apenas uma crise de saúde global, é também uma grande crise do mercado de trabalho e econômica que está tendo um enorme impacto nas pessoas", disse o diretor-geral da OIT, Guy Ryder. "Em 2008, o mundo apresentou uma frente unida para enfrentar as consequências da crise financeira global, e o pior foi evitado. Precisamos desse tipo de liderança e determinação agora", acrescentou ele.

A OIT alerta que certos grupos serão desproporcionalmente afetados pela crise do emprego, o que poderia aumentar a desigualdade. Estes incluem pessoas em empregos menos protegidos e mal remunerados, especialmente jovens e trabalhadores mais velhos. As mulheres e os migrantes também. "Estes últimos são vulneráveis devido à falta de proteção social e de direitos", apontou.

"Em tempos de crise como o atual, temos duas ferramentas que podem ajudar a mitigar os danos e restaurar a confiança do público. Em primeiro lugar, o diálogo social, o envolvimento com trabalhadores e empregadores e seus representantes, é vital para construir a confiança pública e o apoio às medidas que precisamos para superar esta crise", defendeu Ryder. "Em segundo lugar, as normas internacionais do trabalho fornecem uma base comprovada e confiável para respostas políticas que se concentram em uma recuperação que seja sustentável e equitativa. Tudo precisa ser feito para minimizar os danos às pessoas neste momento difícil", concluiu Ryder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL