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Jamil Chade


Lula envia carta ao presidente chinês, ataca Eduardo Bolsonaro e governo

14.nov.2008 - Lula e George W. Bush, na época presidentes do Brasil e Estados Unidos, durante a primeira cúpula do G20; à direita, o então presidente da China Hu Jintao - REUTERS/Jim Young
14.nov.2008 - Lula e George W. Bush, na época presidentes do Brasil e Estados Unidos, durante a primeira cúpula do G20; à direita, o então presidente da China Hu Jintao Imagem: REUTERS/Jim Young
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/03/2020 15h38

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao presidente da China, Xi Jinping, uma carta em que pede desculpas pelo comportamento do deputado Eduardo Bolsonaro e ataca o governo brasileiro por sua atitude "servil" em defesa dos interesses do presidente americano, Donald Trump.

O documento, obtido com exclusividade pela coluna, foi entregue à embaixada da China em Brasília na sexta-feira. Neste domingo, ela chegou às mãos do presidente Xi Jinping.

Na semana passada, Eduardo Bolsonaro abriu uma crise diplomática ao culpar a China pela pandemia do coronavírus. O embaixador de Pequim no Brasil, Yang Wanming, retrucou e acusou o deputado de estar servindo de porta-voz para os interesses do governo americano, que vem adotando exatamente a mesma estratégia em relação aos chineses.

Para Wanming, Eduardo Bolsonaro retornou de Miami, onde esteve com Donald Trump, com "vírus mental". "Aconselhamos que não corra para ser o porta-voz dos EUA no Brasil, sob a pena de tropeçar feio", disse.

A resposta do governo brasileiro não demorou para chegar, com o chanceler Ernesto Araújo exigindo que o embaixador se retratasse, o que jamais ocorreu.

Para Lula, o Brasil sob o governo de Jair Bolsonaro tem demonstrado ser um "reles bajulador" da Casa Branca e adotou uma política externa "servil".

"Em nome da amizade entre os povos do Brasil e da China, cultivada por sucessivos governos dos dois países ao longo de quase cinco décadas, venho repudiar a inaceitável agressão feita a seu grande país por um deputado que vem a ser filho do atual presidente da República do Brasil", escreveu Lula. Em seus anos na presidência, o petista não coincidiu com o governo de Xi Jinping.

"Tal atitude, ofensiva e leviana, contraria frontalmente os sentimentos de respeito e admiração do povo brasileiro pela China", declarou. "Creio expressar o sentimento de uma Nação, que tive a responsabilidade de presidir por dois mandatos, ao pedir desculpas ao povo e ao governo da China pelo comportamento deplorável daquele deputado", afirmou.

Apontando para os gestos do Congresso e de outras parcelas da sociedade, Lula criticou o silêncio do Executivo. "Lamento, entretanto, que o atual governo brasileiro não tenha feito ainda esse gesto pelos canais diplomáticos e por meio do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, que deveria ter sido o primeiro a tomar tal atitude", escreveu.

"Seu silêncio envergonha o Brasil e comprova a estreiteza de uma visão de mundo que despreza a verdade, a Ciência, a convivência entre os povos e a própria democracia", disse.

Lula ainda colocou a crise no contexto da guerra comercial. "Lamento especialmente que esta agressão tenha ocorrido na conjuntura de um contencioso comercial entre a China e os Estados Unidos, país ao qual a política externa brasileira vem sendo submetida de maneira servil por este governo", disse. "Bolsonaro rebaixa as relações do Brasil com países amigos e se rebaixa como reles bajulador do presidente Donald Trump", apontou.

"Este governo passará, sem ter estado à altura do Brasil, mas nada poderá apagar os laços de amizade e cooperação que vimos construindo desde 1974, quando o então presidente Ernesto Geisel restabeleceu as relações entre o Brasil e a República Popular da China", indicou.

Lula ainda lembrou como "praticamente todos os presidentes brasileiros, desde então, fortaleceram nossa relação nos mais diversos campos". Na carta, ele cita José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Itamar Franco. Ele ainda lembrou que, em 2009, a China se transformou no maior parceiro comercial do Brasil. "Em meu governo, o Brasil reconheceu a China como economia de mercado e construímos juntos os BRICs, inaugurando um novo capítulo na ordem mundial", disse.

Vitória

O ex-presidente ainda aproveitou a carta para parabenizar a China por seus esforços contra a pandemia. "Recentemente, expressei minha solidariedade ao povo e ao governo da China no enfrentamento ao coronavírus. Recebo agora a notícia de que os esforços admiráveis nesse combate resultaram na interrupção, pelo segundo dia consecutivo, da transmissão do vírus em seu país. Parabéns por esta vitória e sigam lutando", disse.

"Esta é a verdadeira imagem da China que nós, brasileiros e brasileiras, aprendemos a admirar, numa convivência de mútuo respeito. Um país com o qual desejamos manter e aprofundar as melhores relações de amizade e cooperação, inclusive no combate à grave pandemia que também nos atinge", completou.

Jamil Chade